Economia & Negócios

Governo precisa aplicar medidas severas contra a crise, diz economista

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Para que os reflexos da crise financeira internacional possam ser superados, o governo terá que adotar medidas contundentes. Embora o Banco Central (BC) venha oferecendo socorro à economia brasileira desde 24 de setembro, na avaliação do economista Roberto Luis Troster os esforços têm servido apenas de paliativo para recuperar os índices de crescimento registrados antes do início da turbulência mundial.

Troster, que é conselheiro do Conselho Regional de Economia (Corecon) e ex-economista chefe da Federação Nacional dos Bancos (Fenaban), esteve em Bauru ontem para ministrar uma palestra sobre o assunto no auditório da Instituição Toledo de Ensino (ITE). Antes, ele concedeu entrevista exclusiva ao JC e lamentou a forma como o governo federal vem enfrentando a instabilidade econômica brasileira.

“O gabinete de crise do governo poderia ter um medo mais ‘saudável’ e assumir que o quadro mudou, mas o governo está reagindo a conta-gotas. A idéia não é estatizar as empresas, nem resolver todo o problema agora, mas criar condições para que as empresas possam voltar a emprestar dinheiro”, frisa.

Entre as medidas apontadas como necessárias para frear a desaceleração da economia está a diminuição das taxas de juros, injeção de liquidez e compra de ativos dos bancos. Para o mercado financeiro, Troster aponta ainda ser necessário manter os índices da taxa Selic e acabar com os depósitos compulsórios (parte dos recursos captados pelos bancos junto aos clientes que têm de ser recolhidos ao BC), para aumentar os recursos disponíveis para o crédito no País.

“No resto da economia, é preciso um ajuste fiscal oportuno, cortar tudo o que for supérfluo, começar a discutir as reformas previdenciária e trabalhista e criar condições para que as empresas produzam mais”, enumera. Para o economista, a crise é o momento ideal para que o governo crie uma agenda positiva capaz de reverter as expectativas ruins e gerar uma dinâmica interna menos dependente do mercado externo.

2009 comprometido

Troster, que se considera um otimista, afirma estar preocupado com as conseqüências que este momento crítico possa trazer para o Brasil, especialmente porque a economia do País já vinha desacelerando antes do mês de setembro: no início do ano, a expectativa de crescimento para 2009 era de 4,2%; no final de agosto, de 3,6%.

“Naquela época, também já tínhamos uma perda de liquidez, porque o BC elevou os compulsórios e aumentou o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Isso começou a frear o crédito. O quadro que temos hoje se dá pela junção das três coisas: um quadro de desaceleração, uma perda de liquidez e uma crise externa”, aponta.

Ele destaca que é impossível projetar até quando o Brasil sentirá os efeitos da crise, mas garante que o ano de 2009 já está comprometido. Para ele, o importante é que o BC adote medidas rápidas e eficazes para evitar, inclusive, uma recessão.

“A previsão de crescimento da economia agora está em 2%. Se não houver uma reação contundente, o efeito da crise será maior. O crédito está secando, o preço das commodities está caindo e o dólar está subindo. E esses são apenas os efeitos primários”, considera, explicando que esse quadro reduz a entrada da moeda americana no País, o que aumenta o nível de inflação e acarreta aumento nas taxas de juros.

Em meio a um cenário de indefinição, Troster recomenta cauteda ao consumidor comum, mas não alarmismo. Mesmo porque parte da retração no consumo já está acontecendo em função do medo das pessoas em assumir gastos num momento de instabilidade – e não necessariamente pela queda de seu poder de compra.

“A pessoa não deve se endividar, deve postergar todo gasto que puder e evitar investimentos na Bolsa de Valores. A economia continua funcionando, mas nesse cenário de mudança, o consumidor tem de se adaptar rapidamente para não correr riscos. Mesmo porque ninguém sabe como estarão os empregos daqui a um tempo”, finaliza.

Comentários

Comentários