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Em defesa da cegueira


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Em seu livro “Ensaio sobre a cegueira”, o prêmio Nobel de Literatura José Saramago descreve o caos que se apodera da sociedade quando uma doença misteriosa deixa todos os cidadãos cegos (com exceção de um único personagem), em uma situação que questiona a moral e as normas de comportamento atuais. Trata-se de uma metáfora sobre a crise de valores e a condição humana. Muitos críticos fizeram comparações da história do autor português com o colapso da civilização desenhada hoje no mercado financeiro. O novo e mais violento derretimento bursátil teria sido produto da cegueira de economistas e banqueiros, na ganância de ganhar; ganhar a qualquer custo. Agora é que estariam vendo o tamanho da catástrofe que provocaram. Diderot explora a reação dos nascidos cegos e que um dia, por algum milagre começam a enxergar. O instante é de perplexidade quando passam a ver golpeados pela luz, cores e formas. Não conseguem entender as imagens do mundo. Os donos do dinheiro (dos outros) globalizaram a economia, incentivaram o consumo, venderam o sonho da casa própria, montaram a indústria do crédito e emitiram toneladas de papéis. Agora se vêem à frente do estouro da bolha de trilhões de dólares. Ninguém tem noção do que essa montanha de dinheiro representa. Com muito menos poderiam ter acabado com a fome no mundo, descoberto a cura de todos os tipos de câncer conhecidos e até eliminado a gripe do rol das patologias. Claro, se estivessem preocupados com a humanidade e não com a economia dos laboratórios farmacêuticos.

Fazer comparações entre a cegueira e a cobiça pode parecer até discriminatório com quem perdeu a visão ou nasceu sem ela. Nos Estados Unidos, a Federação Nacional dos Cegos protestou contra o filme de Fernando Meirelles, com título homônimo ao do livro de Saramago. A vida real do cego pode ser tão produtiva e ética quanto a daqueles de visão normal que trabalham e preservam valores éticos. A perda da visão fez com que Jorge Luiz Borges se tornasse um mestre da literatura oral em conferências memoráveis, além de produzir mais ensaios e poesias. Se enxergasse, talvez tivesse ficado restrito aos contos fantásticos, e não teria o papel que tem hoje, o do velho sábio, culto, erudito, que sem ler citava de memória trechos literários. Não, os cegos não estão imersos no preto absoluto. Entregue a divagações, Borges fala sobe o vermelho e o negro de Stendhal, as cores de que mais sente falta.

Da escuridão imposta pela morte de um sentido James Joyce apelou para a memória e seus meandros, criando novos caminhos. Joyce suportou múltiplas cirurgias e fez da reduzida visão necessidade para o encontro da realidade da experiência. Com sua genialidade consegue pôr a “linguagem nas trevas”, com tantas referências à falta de visão em “Finnegans Wake”.

Vivemos no império da visão, com o predomínio desse sentido sobre os outros, inclusive no infinito de expressões como “à primeira vista”, “olhar apurado”, ou a muleta acadêmica do “vale observar”. Os cegos dão atenção a outros fatores que podem ser cheirados, esquecidos e tocados. Assim, cometem menos erros do que aqueles que têm olhos para ver, mas não enxergam um palmo adiante do nariz. Talvez por isso José Saramago considere ter produzido um livro violento sobre a degradação social. Um dos maiores desafios para o diretor do filme, Eduardo Meirelles foi conseguir que o elenco atuasse como se realmente tivesse perdido a visão. Para isto foram feitas “oficinas de cegueira”, nas quais cada ator passou horas em total imersão para se acostumar com o que se sente quando não se vê. É muito difícil ter a percepção de um cego. Enxergar, sem perceber, de pouco adianta. Manuel Bandeira explicava num poema o verdadeiro sentido da vista: “Prova. Olha. Toca. Cheira. Escuta. /Cada sentido é um dom divino” (Estrela da vida inteira). O próprio José Saramago faz uma advertência logo na primeira frase do seu livro: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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