Esportes

‘Estou cansado psicologicamente’

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

Um dos mais bem sucedidos pilotos do automobilismo brasileiro e prestes a encerrar sua longínqua carreira de 37 anos atrás de um volante, Ingo Hoffman esteve em Bauru semana passada, oportunidade em que ministrou uma palestra motivacional junto a representantes do setor automotivo da cidade e convidados.

Na oportunidade, em que concedeu entrevista exclusiva ao JC, o piloto, que coleciona 12 títulos na Stock Car Brasil, falou sobre a decisão em deixar as pistas - ao menos em competições oficiais -, bem como a nova função em que pretende acelerar a partir do próximo ano, sem, entretanto, abandonar a convivência nos paddocks. Além da consultoria comercial que prestará aos pilotos, munido de sua própria experiência em angariar patrocínios durante toda sua trajetória, Ingo também atuará como diretor esportivo de sua atual equipe na Stock Car, a AMG Motorsport.

Hoffman, que também divide suas atenções com seu instituto, batizado com o nome do piloto, referência no atendimento a crianças carentes com câncer, também falou sobre como administrar financeiramente uma carreira de piloto, um dos pontos mais enfatizados na palestra. Com breve passagem pela Fórmula 1 na década de 70 (pela Fittipaldi Copersucar), o piloto ainda opinou sobre as reais chances de êxito do ferrarista Felipe Massa na briga pelo título frente ao britânico Lewis Hamilton, com sete pontos a frente do brasileiro, às vésperas da corrida em Interlagos, última do campeonato.

JC – Como você traça o paralelo entre sucesso no volante e no meio empresarial, já que na sua palestra aborda muito o âmbito financeiro na busca de patrocínio?

Ingo – Abordo na palestra tópicos importantes para o piloto ter sucesso, entre eles o controle emocional e a importância do “piloto negociador”. O piloto precisa ser um bom homem de negócios. Caso contrário, não sobrevive nesse meio. Na seqüência, cito três tópicos importantes para uma equipe ter sucesso - determinação, organização e treinamento. Sobre isso procuramos fazer um paralelo com a vida do empresário, em cima de decisões certas ou erradas e no que isso tudo implica. De todos os casos que abordo ilustro com fatos reais, inclusive o título da palestra é “Uma História com muitos Causos”, com fatos que ocorreram comigo.

JC – E quais os segredos para se conjugar essas funções ?

Ingo - Não é preciso somente saber captar bem, mas também saber gastar bem. Muitas vezes o barato sai caro. Uma equipe estava tão desesperada que eu fosse o cliente deles, que me apresentaram o orçamento e, se eu fechasse, para mim, ao menos economicamente, seria um excelente negócio. Na prática não teriam condições financeiras de me preparar um bom carro e prestar um bom serviço. Cheguei para o dono dessa equipe e falei ‘teu orçamento está errado, você tem que fazer para cima. Assim não terá condições de me preparar um bom carro. Sem um bom carro não vou ter condições de brigar pelo título, ganhar corridas e, no final do ano, vou perder meus patrocinadores. Fiz com que ele subisse o orçamento dentro da realidade do negócio. Então, o piloto tem de entender do negócio como um todo, o que é difícil atualmente pois a maioria possui managers, que é uma maneira “bonita” de dizer que possuem empresários.

JC – Já que o assunto é dinheiro, qual o reflexo da turbulência econômica mundial no automobilismo?

Ingo – Tenho autoridade para falar apenas de minha área e, no meu universo, a preocupação é se adequar, em termos de valores, dentro da crise. Não adianta pensarmos em orçamentos absurdos. Acho que a gente tem que estar antenado a tudo o que acontece no mundo. Um grande percentual do que se utiliza nos carros é em dólar, em peças que vêm de fora. Com essa tremenda oscilada sentida na moeda, qualquer orçamento já pode dar uma quebrada. É preciso estar atento quanto a isso.

JC – Você anunciou que este ano para de correr profissionalmente. É uma decisão definitiva?

Ingo - É. No final do ano paro como piloto e passo a uma outra fase na categoria, onde usarei um pouco de minha experiência de tantos anos no lado comercial. Fiz uma parceria com a equipe que corro até hoje e vou trabalhar com os patrocinadores na parte de relações públicas, presença em eventos, palestras e, ao mesmo tempo, vou ser responsável pela direção esportiva da equipe, com o trabalho de treinamento com os novos pilotos. Vou continuar no automobilismo, mas fora do volante.

JC – E não sente tristeza em deixar as provas em que está acostumado desde 72?

Ingo - Estava na hora mesmo. Não foi uma decisão tomada de sopetão. Vinha pensando nisso de três a quatro anos e, de certa forma, me preparando para isso. Com certeza vou sentir falta de guiar um carro, mas dentro de meu projeto para ano que vem continuarei guiando, ao conduzir convidados dos patrocinadores para as voltas rápidas. Então poderei matar a vontade de dirigir um Stock Car. No lado de competição estou decidido a parar, são 37 anos de carreira, 30 dentro da Stock Car. Estou cansado psicologicamente, sou uma pessoa muito exigente comigo mesmo, cheguei a lugares bacanas, pois ganhei 12 campeonatos e estou bem fisicamente, mas psicologicamente estou cansado.

JC – Estamos próximos do GP Brasil, com Felipe Massa na briga pelo título. Quais as reais chances do brasileiro?

Ingo - Acho que ele só tem chance se acontecer algo errado com o Hamilton, seja uma pane mecânica, pneu furado, um acidente.

JC – Mas o inglês tem um histórico de se complicar na hora do “vamos ver”...

Ingo - Existe uma chance, mas bem menor que no ano passado. Acho difícil acontecer o que aconteceu aqui em Interlagos, dele perder o título que estava ganho. Em vista dos erros que cometeu agora, nas últimas corridas, acho que ele (Hamilton) aprendeu. Vamos torcer, como brasileiros, para que ele não tenha aprendido.

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