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Ascensão pode desequilibrar profissional

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

O sujeito acorda pela manhã e sente uma espécie de mal-estar quando se lembra que terá de sair de casa para trabalhar. Nos momentos de folga, não consegue desligar a cabeça das preocupações do serviço; a toda hora, vêm à mente os afazeres ainda não resolvidos. No trabalho, volta e meia é atormentado pela pergunta: “o que estou fazendo aqui?”

Quantos de vocês, leitores - mesmo aqueles que se consideram bem-sucedidos profissionalmente (ou que são vistos dessa forma pelas pessoas) - já não se sentiram assim, algum dia que seja na vida? Se a sensação de frustração se mostrar persistente, talvez seja um sinal de que chegou a hora de parar e repensar a vida: de dar mais valor à família, ao lazer e às coisas que o dinheiro (em tese) não pode pagar.

“Atualmente, as pessoas fazem muito para a empresa e pouco para si. Elas não avaliam aquilo que realmente almejam na vida e, quando atingem seu objetivo, ficam com um sentimento de frustração”, afirma o consultor profissional André Alfaya.

O ideal, afirma ele, seria que os profissionais buscassem o equilíbrio. “É uma espécie de ‘ecologia pessoal’: o indivíduo precisa reavivar todos os aspectos da vida que se encontram com problemas”, salienta Alfaya.

A consultora de recursos humanos Regina Maura Pereira Torres tem visão parecida. “O segredo é buscar o equilíbrio entre vida profissional, afetiva e profissional. Do contrário, a pessoa corre o risco de alcançar o sucesso no emprego mas pensar: ‘bem, agora não tenho tempo para curtir aquilo que conquistei’”, diz.

Ela reconhece, porém, que esse equilíbrio é algo extremamente difícil de ser alcançado. “O trabalho, nos dias de hoje, é baseado em resultados e exige grande comprometimento da parte dos profissionais. É preciso estar sempre preparado, realizar inúmeros cursos, ser sempre o melhor para não ser engolido pela concorrência”, pondera.

Em um contexto desses, em que a máxima “tempo é dinheiro” se converteu em uma espécie de dogma para grande parte das pessoas, falar em lazer, ócio ou diversão soa quase como um sacrilégio.

Fica então a pergunta: como alcançar qualidade de vida em um mundo que exige mais e mais dos trabalhadores? “É preciso saber administrar o tempo e perceber que há coisas que valem mais do que o dinheiro. Senão, o sucesso acaba perdendo o sentido. A pessoa acaba como o Tio Patinhas (personagem da Disney criado por Carl Barks, nos anos 40, considerado o símbolo da avareza), dedicando seus dias a acumular na caixa-forte uma riqueza que jamais terá condições de gastar”, alerta Torres.

Escolha de vida

O professor do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru Luiz Carlos Canêo lembra que, quando se fala em mercado de trabalho, é preciso se levar em conta de que se trata de um mundo bastante heterogêneo.

“Hoje, no Brasil, é possível se encontrar desde empresas tayloristas, que encaram o funcionário como mera força muscular, até aquelas que enxergam o homem como um ser pensante e se preocupam em estimular a criatividade do trabalhador”, afirma.

De acordo com Canêo, falar em qualidade de vida para um profissional inserido no modelo taylorista (de Frederick Winslon Taylor, engenheiro norte-americano considerado o pai da administração científica) seria algo inimaginável. “É que esse tipo de empresa costuma adotar um estilo autocrático (só uma pessoa manda e as demais obedecem) de gestão que acaba ‘matando’ no funcionário aquilo que é inerente ao ser humano - ou seja, o livre pensar”, explica. Mais ou menos como naquela frase: “Você é pago para fazer, não para pensar.”

As empresas da outra ponta - que valorizam o livre pensar, a criatividade e a qualidade de vida do trabalhador, denominadas por Canêo como “organizações de aprendizagem” - já teriam entendido que “o homem é o grande diferencial de competitividade e que o conhecimento humano é essencial para que elas possam se manter no mercado.”

Mas nem tudo são flores para o trabalhador nesse novo modelo de gestão. “O profissional acaba ficando atrelado a um movimento de busca pelo conhecimento, que não tem fim. Ele perde sua autonomia e deixa de fazer aquilo que realmente quer para se dedicar àquilo que o mercado deseja”, explica Canêo.

Ele cita o exemplo de pessoas que, ao escolherem a carreira universitária que irão seguir, optam por cursos que, em tese, poderiam garantir a elas uma maior chance de inserção no mercado. Para não ser engolido por esse modelo e perder a autonomia (fazer aquilo que as empresas desejam e não aquilo que eu quero), Canêo recomenda muita reflexão.

“Não podemos querer ser ingênuos a ponto de achar que podemos ir contra essa lógica, mas temos de encontrar brechas - e elas existem - no sistema que não nos é favorável”, afirma.

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‘Esvaziar o copo’

Embora seja considerado pelos especialistas um item essencial para a qualidade de vida de qualquer trabalhador, o lazer ainda é visto com reservas por profissionais inseridos em um mercado cada vez mais dominado pela lógica do “tempo é dinheiro”.

“Inicialmente, as pessoas podem mostrar resistência ao lazer, mas, depois que ‘esvaziam o copo’, acabam percebendo que há outras coisas importantes na vida além do dinheiro”, afirma a consultora de recursos humanos Regina Maura Pereira Torres.

O farmacêutico Ralph Farina, 43 anos, por exemplo, reserva parte de seu tempo diário para caminhadas e atividades esportivas. Além disso, nos feriados, gosta de viajar com a família para estar em contato com a natureza. “Se não pudesse fazer isso, acredito que algo ficaria faltando em minha vida e eu teria mais dificuldades para encarar algum problema que surgisse no trabalho”, pensa.

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