Cultura

Ferrovia impulsiona a imprensa em Bauru

Amanda Rocha
| Tempo de leitura: 6 min

Em 1905, Bauru estava em plena construção e a chegada dos trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana, ligando Bauru a São Paulo por uma ferrovia, mudaria para sempre o rumo da pequena vila. A marcha para o Oeste estava a todo o vapor atraindo pessoas de várias partes do país e o início da imprensa bauruense acenava junto ao desenvolvimento da cidade.

“O entroncamento ferroviário influenciou a fundação de jornais, com a Estrada de Ferro Sorocabana e o início da construção da Noroeste do Brasil rumo ao Mato Grosso. Começam aí o interesse em construir a cidade e o marco inicial da imprensa”, diz Gabriel Ruiz Pelegrina, historiador, jornalista e professor emérito da Universidade do Sagrado Coração (USC).

O aparecimento do primeiro jornal, “O Progresso de Bauru”, no dia 1 de maio de 1905, de circulação semanal, formato pequeno e de produção artesanal, teve suas primeiras edições feitas em Avaré. Nessa época, o comércio e a indústria davam os primeiros passos e o conceito de publicidade ainda era muito vago. Como o jornal passava por dificuldades financeiras, foi necessário pleitear a colaboração da Câmara Municipal e, mediante retribuição mensal de $ 40 mil réis, o jornal divulgava atos do Legislativo. Devido a problemas técnicos nas oficinas e ansiando por materiais tipográficos para o aprimoramento do jornal, porém sem condições de compra e empréstimo negado pela Câmara, “O Progresso de Bauru” sobreviveu por pouco tempo, cerca de seis meses.

A pequena população insatisfeita cobrava dos políticos um jornal estável e de maior representatividade. Hábito de leitura da elite, era tendência os jornais pertencerem à classe dominante. Assim, em 1906 começa a saga dos jornais bauruenses, em sua maioria efêmeros, fundados no início por advogados, políticos e ex - prefeitos da cidade.

“A produção jornalística e produção memorialista em Bauru andam juntas. Entender como a sociedade era pensada, o processo de construção da cidade, de transformação urbana, se dá através do registro de notícias e informações desses jornais”, diz Célio José Losnak, doutor em história social e professor da Universidade Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp). Atualmente, ele desenvolve uma pesquisa sobre a região oeste de São Paulo e a formação das cidades no início do século XX.

No desenrolar da evolução da cidade, inúmeros jornais são publicados e interagem com o espaço urbano e local. Disputas políticas orientavam a criação dos jornais e conduziam os grupos da imprensa. Recados, cobranças e insultos entre os leitores e os próprios jornalistas eram comuns nessa época. Poesias na primeira página davam o tom literário ao impresso. Jornais como “O Bauru”, “A Cidade de Bauru”, “A Gazeta de Bauru”, “O Tempo”, “O comércio de Bauru”, “O Dilúculo”, entre outros, são alguns dos exemplos.

Ideais iluministas

Até a primeira metade da década de 10, os jornais eram semanários com pouca publicidade, sendo a maioria de remédios, bebidas, hotéis, lojas do comércio e médicos que começavam a surgir em Bauru. Campanhas promocionais, como a distribuição de brindes, já existiam nesse período para conquistar novos leitores. De acordo com Losnak, a característica dos jornais da primeira década vinha ao encontro da formação do indivíduo, era um espaço de discussão política, com ideais iluministas.

O jornal “O Bauru”, fundado em 1906 pelo ex-prefeito Domiciano Silva e dirigido pelo jornalista Almerindo Cardarelli de 1908 a 1929, é modelo da cultura jornalística da época. De caráter explicitamente político, mas também comercial e noticioso, registrava os acontecimentos, como a ebulição política e os fatos violentos que a cercavam. A inauguração, em 1908, da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, com a presença do então presidente Afonso Pena e a ampla cobertura do assassinato do coronel Azarias Leite em 1910 são exemplos de registro histórico da cidade. Losnak arrisca que o jornal de Cardarelli sinalizava para uma certa independência, com estilo que muitas vezes parecia anarquista devido, em partes, à divulgação do movimento operário e inúmeras polêmicas com os prefeitos da cidade.

Segundo Losnak, o conceito de notícia do período está atrelado à dinâmica da cidade e o que a sociedade considera como informação que deve divulgada. “Parte do que a gente deve chamar de notícias são notas, colunas sociais, visitas na cidade, atividades sociais da elite da época, encontros culturais e notas policiais”, diz.

Como a relação entre o aparecimento dos jornais está ligada ao crescimento da cidade, a necessidade de um jornal diário era latente. Fatos como a iluminação elétrica, encanamento de água, instalação da Comarca de Bauru, fundação da Santa Casa de Misericórdia (Hospital de Base) aconteciam nesse período. Em 1916, Bauru ganha seu primeiro jornal diário, o “Correio de Bauru”, fundado pelo português Manoel Ferreira Sandim, entre outros. De perfil noticioso, em sua terceira edição, o jornal reclamava contra a “alta crescente dos gêneros de primeira necessidade”. O diário ficou famoso pelo bom acabamento e colaborações, como a do poeta Rodrigues de Abreu.

A importância de Sandim para a sociedade bauruense foi ampla, pois além de trabalhar na imprensa e comandar a gráfica “Tipografia Artística”, foi pioneiro das indústrias de bebida e colchões, colaborando muito para a prosperidade da cidade. Manteve por mais de uma década a circulação diária do jornal, proeza das mais difíceis para a época.

Noções como objetividade, neutralidade e imparcialidade aparecem na década de 20 proporcionando um salto significativo no conteúdo das notícias. A publicidade cresce e os jornais buscam assinantes nas regiões para tentar manter uma certa independência política. De acordo com Losnak, a maior incidência de notícias e textos que reportam acontecimentos da realidade está atrelada ao viés menos político adotado pela imprensa. “A objetividade, a neutralidade e a imparcialidade tem a ver com o público e a possibilidade de independência desses jornais em relação aos grupos políticos”, diz.

Bauru recebia centenas de famílias vindas de São Paulo, Rio e Três Lagoas para trabalhar na ferrovia trazendo novos costumes. A abertura de lojas e indústrias na cidade aquecia os jornais e o setor social. “Além do interesse em política e economia, havia o interesse pelas notas sociais. Também era comum a sinopse de filmes, na maioria mudos”, conta a doutora em história social Teresinha Santarosa Zanlochi, professora da USC.

O segundo diário bauruense, “O Diário da Noroeste” (1925), liderava a campanha pela criação do hospital de hanseníase, hoje Instituto Lauro de Souza Lima. Opinativo e combativo, o jornal provocou a convocação do Congresso dos Municípios para tratar dessa importante questão da sociedade. O jornalista responsável, José Maria Jorge de Castro, deixou um rastro de cultura em nossa imprensa, sendo um exemplo de intelectualidade da época. “Os jornalistas eram bons leitores, ousados e escreviam com maior liberdade, contextualizando o momento”, diz Zanlochi.

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