Bauru teve vários jornalistas que merecem destaque pelo que fizeram em prol da cidade. Um deles é o jornalista-historiador José Fernandes, que fundou o “Correio da Noroeste” (1931), “Correio Ilustrado” e o “Correio da Semana”, sendo um dos propulsores do jornalismo do Interior do Estado. Através do Correio da Noroeste, Fernandes foi o porta-voz da região Central pela luta a favor dos hansenianos, amparou diversas entidades filantrópicas, participou de reivindicações da indústria e do comércio além de ter sido um entusiasta do esporte bauruense. As fundações da Liga Bauruense de Futebol Amador e a Associação Comercial e Industrial de Bauru (ACIB) tiveram participações do jornalista. “José Fernandes ajudou muito no esporte, criou a Volta de Bauru, uma corrida de pedestres, promovia corridas de bicicleta, e também foi responsável por organizar o primeiro campeonato amador de futebol de Bauru”, conta Gabriel Ruiz Pelegrina, também um dos principais jornalistas da história de Bauru e ex-cronista esportivo do Correio da Noroeste.
Não bastasse isto, Fernandes foi um grande historiador. Suas pesquisas sobre a fundação e desenvolvimento da região renderam livros sobre a história de Jaú e Agudos, além de artigos sobre a história de Bauru publicados em revistas como a Brasilitas. “Foi jornalista importante durante décadas, dirigiu o Diário e Correio, talvez seja o precursor do jornalismo histórico na segunda metade da década de 20”, enfatiza Célio Losnak. As páginas do Correio são fontes ricas de jornalismo histórico de uma época intensa de cultura, costumes e progressos na cidade.
Dando seqüência à luta de Fernandes a favor da construção do Instituto Lauro de Souza Lima, o jornalista pernambucano Paulino Raphael se empenhou e obteve êxito nesta fundamental causa. Envolvido em muitos embates, sejam político, administrativo ou social, a trajetória de Raphael é de reivindicações e conquistas pela cidade, ajudando na fundação do Aeroclube e Automóvel Clube de Bauru e da Santa Casa da Misericórdia (atual Hospital de Base). Em 1933, lançou a “Gazeta de Bauru” e logo em seguida “A Folha do Povo”, que circulou por mais de 30 anos. Contudo, para manter os jornais teve que arcar com todos os custos. De linguagem objetiva e de teor informativo, a “Folha do Povo” detalhava os acontecimentos da região, do país e do mundo, e liderava campanhas em defesa dos interesses do município. Pelegrina conta que naqueles tempos eles trabalhavam praticamente de graça e tudo acontecia pelo esforço e paixão do jornalista. “A gente trabalhava por conta própria, não ganhava nada e ficava até tarde da noite na redação”, relembra.
Para a historiadora Terezinha Zanlochi, Pelegrina deve ser considerado o precursor do jornalismo especializado e Bauru nunca vai conseguir compensar o que ele fez pela comunidade e região. “Sua visão era diferenciada dos anteriores, ele pesquisava o contexto histórico que vivia e escolheu escrever sobre a nossa história, desdobrando a cidade em assuntos como esportes, ferrovia, Aeroclube, Banco do Brasil etc.” E ressalta: “O Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica de Bauru e Região (NUPHIS) existe devido ao acervo que ele disponibilizou, são mais de um milhão e quinhentas mil páginas documentais, sendo fonte de pesquisa para USP, Unicam, UFRJ e países como Espanha e Chile”.
O pernambucano João Correia das Neves é outro modelo de jornalista-historiador. Publicou o livro “A História da Estrada de Ferro da Noroeste do Brasil” (1958), considerada uma obra histórico-científica. Além de jornalista, foi escritor, poeta, ferroviário e diretor do sindicato dos empregados da Noroeste. Polêmico, iniciou no Diário da Noroeste, passando pelo Correio da Noroeste, Folha do Povo e Diário de Bauru. No final da década de 20, fundou o tablóide satírico “O Ban Ban Ban” e o “Jornal da Manhã”, e no início dos anos 50 a revista mensal “Paulista”, de conteúdo histórico. Como redator-chefe no jornal “Folha do Povo”, cobria o noticiário local, nacional e internacional e, superando as dificuldades tecnológicas da época, anotava por taquigrafia os noticiários das rádios. Seus “furos” sobre a II Guerra Mundial eram captados pelas ondas de rádio da BBC de Londres e informados à população bauruense. De intensa atividade política e jornalística, Correia das Neves foi uma figura popular, folclórica. Recebeu o título de “Cidadão Bauruense” da Câmara Municipal e morreu aos 84 anos. Foram muitos os colaboradores e jornalistas da imprensa bauruense que, através da paixão, coragem e determinação fizeram a cidade e o jornalismo evoluírem juntos. “Diferente das técnicas do jornalismo atual, o jornalista partia da emoção e do sentimento, fazia valer o que acreditava, correspondendo ao pensamento da comunidade”, finaliza Zanlochi.