No início do século 20, os trilhos das Estradas de Ferro Sorocabana e, posteriormente, Noroeste, trouxeram perspectivas de crescimento econômico e progresso para Bauru. O rápido desenvolvimento social e as novas oportunidades de negócios proporcionadas pela construção do entroncamento ferroviário catalisaram condições para o surgimento dos primeiros jornais do município. À época, o modo como esses periódicos participavam dos acontecimentos políticos se alinhava, freqüentemente, ao posicionamento ideológico e partidário de seus proprietários, que os utilizavam como instrumentos para atacar diretamente seus adversários e influenciar a opinião pública.
De acordo com o historiador Gabriel Ruiz Pelegrina, os veículos impressos dificilmente se opunham ao governo vigente, efeito da estratégia de sobrevivência que eles utilizavam, haja vista que, na República Velha, eles não dispunham de grande estrutura física e financeira. “Naquele tempo, os jornais não adotavam uma postura contra o governo porque tal atitude poderia prejudicar seu funcionamento”, afirma. Para o pesquisador Irineu Azevedo Bastos, a imprensa desempenhava uma função pouco crítica das questões políticas. “A imprensa à época da República Velha quase não atacava os problemas políticos locais, muito excepcionalmente isso ocorria. Se pegar os jornais da época, o noticiário maior era sobre o Exterior, questões nacionais ou poesia. Raramente apareciam conflitos”, lembra.
Segundo Bastos, os jornais não eram neutros e não possuíam a penetração social que possuem atualmente, circunstância que convergia as notícias para o campo político e somente as pessoas que pertenciam a ele eram influenciadas. “Os jornais são aquilo que ideologicamente está por trás deles. Se quiser saber a ideologia de um jornal tem que ler as entrelinhas dos assuntos políticos publicados. Não existe jornal neutro”. Esse exercício jornalístico desobstruído de quaisquer padrões de objetividade e neutralidade se constituía como elemento suplementar, envolvendo os grupos políticos da região.
Nos idos de 1910, quando a cidade já possuía os jornais “O Bauru” e a “Cidade de Bauru”, duas facções dividiam a política municipal: o Partido Republicano Paulista (PRP), chefiado por Azarias Leite, então presidente do Legislativo, e o Partido Municipal, do qual fazia parte Gérson França, então prefeito da cidade. Nesse período, aconteciam as eleições para a Presidência da República, com a disputa entre Ruy Barbosa e Hermes da Fonseca. Em Bauru, o PRP apoiava Ruy Barbosa enquanto o Partido Municipal, Hermes da Fonseca.
No dia 1 de março de 1910, com a já provável vitória de marechal Hermes da Fonseca nas eleições presidenciais, os civilistas, revoltados com a derrota, se organizaram e partiram rumo à Praça Municipal, localizada na rua Antônio Alves, local onde ficava a redação do jornal “A Cidade de Bauru”, cuja administração era exercida pelo coronel Nelson Noronha Gustavo, um dos chefes do PRP, e que tinha como sócio Azarias Leite. Segundo Pelegrina, por não falar a “mesma língua dos vencedores”, o jornal foi depredado em poucos instantes pelo grupo. “Bastaram alguns minutos para que móveis e maquinários do jornal fossem desmantelados e levados à rua”, recorda. Usualmente, esse procedimento de destruição dos meios impressos é chamado de empastelamento, fato que se repetiu na cidade em mais duas ocasiões, durante as revoluções de 1930 e 1932.
No mesmo ano, em 12 de maio, a cidade teve o seu quarto jornal, intitulado “O Tempo”, fundado por Carlos Marques da Silva, prefeito do município por duas vezes. Tinha como principal objetivo fortalecer o Partido Municipal na cidade. Ao se contrapor politicamente ao jornal “A Cidade de Bauru”, o periódico logo passou a fazer críticas às ações tomadas por membros do PRP.
A principal crítica foi publicada em 1918, em forma de provocação e tom de deboche. Quando Octávio Pinheiro Brizola se candidatara à prefeitura municipal, o livro de atas da Câmara Municipal, cujo conteúdo constava as reuniões realizadas na casa e a assinatura de seus participantes, e sem o qual não se poderiam realizar as eleições, tinha sido escondido pelo então presidente da Câmara, Gustavo Maciel que, por temer a perda do poder político que dispunha, não aceitava Brizola como postulante ao cargo de prefeito. Octávio Brizola, então, adquiriu um novo livro, realizou a sessão eleitoral e elegeu a nova composição da administração municipal, na qual se tornou prefeito de Bauru.
Concomitante à eleição, Maciel elaborou uma sessão clandestina em que se declarava presidente da Câmara e apontava José Rodrigues de Souza como prefeito. Pelegrina conta que não demorou e o jornal “O Tempo” publicou uma notícia sobre essa dualidade política, informando que duas Câmaras passaram a funcionar na cidade: uma dirigida por Mello, no paço da Câmara, e outra, comandada por Maciel, na praça municipal, nos bancos do jardim. “Revoltado, Gustavo Maciel procurou Carlos Marques para tirar satisfação sobre a divulgação do fato. Após o bate-boca, Gustavo desferiu um tapa no rosto de Marques que, estando armado, foi mais rápido e disparou dois tiros na barriga de Maciel”, conta Pelegrina.