Na presente conjuntura econômica mundial, é imprescindível prudência na análise das perspectivas de todos os mercados. No Brasil, é presumível uma redução, mesmo que amena, no nível de atividade, à medida que a dificuldade de crédito for tendo impacto nos investimentos das empresas e consumo por parte da população. Obviamente, são positivas as medidas adotadas pelo governo quanto à flexibilização dos depósitos compulsórios no Banco Central, numa tentativa de irrigar o crédito e manter a economia aquecida. Lamentável, por outro lado, a demora do ingresso desses recursos no mercado.
Nesse cenário, são muito inadequadas e nocivas quaisquer tentativas de aumento de preços, como se observa nas indústrias de resinas termoplásticas. Seria falta de bom senso majorar esse importante insumo em meio a uma das mais graves crises financeiras da humanidade e no contexto de uma curva cada vez mais acentuada de queda dos preços do petróleo, do qual deriva aquela matéria-prima.
A hora é para que todos os agentes da economia real mobilizem-se, por exemplo, no sentido de que o dinheiro dos depósitos compulsórios liberados pelo governo chegue ao chão de fábrica, ao comércio, ao financiamento de bens de capital e produtos de consumo. Falar em aumento de preços é tão passível de crítica quanto a utilização daqueles recursos para outras finalidades que não a manutenção do crédito vivo.
Mais grave ainda essa manifesta intenção das petroquímicas de majorar as resinas, se considerarmos o histórico recente do mercado. O preço do insumo já havia subido, em média, 30% em 2007 e sofreu mais reajustes este ano. Novos aumentos, além de inadequados à previsibilidade próxima da demanda, não se justificam pelo aumento do valor do dólar ante o real. A queda dos preços do petróleo (em percentual muito superior ao da recente flutuação cambial) já tornaria totalmente desnecessário qualquer reajuste das resinas, mesmo se não tivesse ocorrido o desastroso crash do subprime. Com crise, então, falar em aumento de preço é uma confissão de insanidade...
Um novo reajuste teria impacto muito pesado no setor de transformação do plástico, que fornece componentes para a grande maioria dos ramos industriais. Portanto, um eventual repasse dessa majoração poderia ter sensível impacto inflacionário. E isto é tudo o que o Brasil não precisa neste momento de luta para mitigar aqui os efeitos de uma crise nascida nas hipotecas imobiliárias dos Estados Unidos e disseminada pelos incontroláveis meios da globalização.
O setor de transformação do plástico, que emprega mais de 300 mil trabalhadores no Brasil, já tem enfrentado desequilíbrios em decorrência dos sucessivos aumentos de preços das resinas no mercado interno, muito acima do praticado no exterior. Um novo reajuste seria um convite ao pessimismo dos brasileiros, levando-se em conta o impacto direto do material plástico em numerosos segmentos da indústria.
O autor, Merheg Cachum, é presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico - Abiplast