O sucessor do lendário rei Midas, da antiga Frigia, onde hoje está a Turquia, foi Górdio, um camponês que chegou à cidade num carro de boi, conforme previsão do oráculo. Como gratidão a Zeus ele amarrou seu carro numa coluna do templo com um nó indesatável e se alguém conseguisse desatá-lo se tornaria o rei. Desafiado quando invadiu a região, Alexandre Magno não teve dúvida: tirou a espada e cortou o nó, dominando também aquele país. É daí que surgiu a expressão “desatar o nó górdio”, quando se resolve um problema complicado com inteligência e determinação.
Quem conseguirá desatar o “nó górdio” da Educação Brasileira? Não se passa uma semana sem que se tenha uma notícia desagradável a respeito: MEC fecha vagas de Direito em faculdades com índice baixíssimo de aprovação no exame da OAB; 84,5% das crianças que não sabem ler estão na escola, até a 4ª série; seis em cada dez médicos (60%) são reprovados no exame do Cremesp; cidades aprovam mais alunos para melhorar a nota do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) sem que eles tenham melhorado o desempenho em matemática e português, só para receber verba do governo. E para completar o cenário, reportagens de jornais e TV, quase que diariamente focalizam casos de agressão a professores e de escolas públicas em estado lastimável. Quem foi votar no outrora glorioso Instituto de Educação Ernesto Monte, saiu com o coração apertado de dó e tristeza, ao ver a situação em que está.
A primeira dificuldade para desatar o nó está no jogo de empurra/empurra das três esferas do governo. Quem é responsável por o que? O federal está mais preocupado com o ensino superior. O estadual quer empurrar o ensino fundamental para os municípios, que já têm a educação infantil. Houve época em que as responsabilidades eram bem definidas e cada esfera contava com verbas próprias e permanentes. Neste sistema híbrido, parte das verbas é constituída por repasses e cada esfera dá as diretrizes que deseja, com a agravante da descontinuidade após as eleições que mudam os governantes e/ou os titulares das pastas educacionais. A Lei de Diretrizes e Bases estabelece a estrutura e organização do sistema, mas o planejamento e execução ficam a cargo de cada esfera. Na verdade não é um nó, mas um emaranhado. Quem sabe para onde caminha a Educação? Com base no noticiário, caminha para um futuro sombrio.
Recém empossada como Secretária de Educação Superior do MEC, Maria Paula Dallari Bucci começou falando grosso, vai por tudo nos eixos e cortará vagas em todos os cursos que forem mal no Enade. Podem ter certeza de que tudo vai continuar como está. Mais certa está Claudia Costin, vice-presidente da Fundação Victor Civita e futura Secretária Municipal de Educação do Rio de Janeiro, quando escreve: “Esse cenário fez aflorar uma preocupante constatação: convivemos com a dificuldade das instituições de ensino superior de preparar professores para ensinar. No Brasil, muitos deles saem inseguros das faculdades, simplesmente não sabendo o que e como ensinar em sala de aula.” E cita: “uma pesquisa feita pela Fundação Carlos Chagas mostrou que a formação inicial para o ensino infantil e fundamental é deficiente, ao constatar que as instituições de ensino superior não oferecem aos futuros professores os elementos necessários para se dar uma boa aula.”
Que saudades sentimos, os mais velhos, da nossa Escola Normal com aulas de Pedagogia, Psicologia, Práticas Escolares, Desenho Pedagógico e o curso de aplicação, anexo, para a prática docente. Hoje a preocupação é com a pesquisa científica, como se o professor precisasse ser um reinventor da roda, quando o que ele precisa é acumular conhecimentos, saber pesquisar as fontes para preparar as aulas, saber conduzir as aulas de modo que os alunos aprendam e saber avaliar, para promover os que merecem ser promovidos. Muitos ainda vão quebrar as unhas sem desatar esse nó.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru