Nem sei bem por que, mas, ultimamente, venho me preocupando muito com as coisas da natureza. E, a bem da verdade, não só da natureza, mas com todas as mudanças, cujos resultados sejam o retrocesso dos hábitos. Por exemplo: antigamente, as crianças saíam de casa para a escola com ordem expressa de estudar e ai daquela que desrespeitasse o professor. Recebia o castigo na escola e, depois, em casa também. O descumprimento às regras era exceção.
Hoje, ao contrário, poucos se sujeitam a andar nos trilhos. Ir à escola é uma rotina maçante... Respeito aos professores? Apenas na infância e vai desaparecendo. Quando chega a adolescência, não resta nenhum. Daí em diante vira brincadeirinha de roda: os pais mandam, os filhos vão e os professores os entretêm por algumas horas. Não por culpa dos professores. Estes vivem entre a cruz do modernismo dos métodos ineficazes de ensino e a espada da violência que grassa sem controle, nesta era da droga e da liberdade sem responsabilidade.
Novos métodos pedagógicos surgem a cada ano e novas medidas são adotadas, constantemente, contra a violência. Mas, e os resultados? Até quando caminharemos assim? Jovens que se apresentam para exame de vestibular, sem sequer saber escrever; professores acuados entre a truculência dos alunos, estimulados pela liberdade excessiva e a ineficiência dos métodos pedagógicos, sem poder aplicar o verdadeiro mister de professor. Pais que não sabem administrar a infância de seus filhos e que, na adolescência, perdem o controle da situação... Que tristeza!
Os trens! Inacreditável! Foram-se de vez. Quanta melancolia ao passar em frente à majestosa estação ferroviária. Jamais alguém imaginava Bauru sem as locomotivas chegando, saindo ou manobrando, com seus apitos sonoros e românticos. O burburinho nas imediações da estação. As confortáveis viagens para São Paulo, nos trens da Paulista. As românticas viagens para Corumbá, através da pitoresca paisagem do Pantanal de Mato Grosso, admirada através de uma mesa do carro-restaurante ou mesmo da própria cabine, nos trens da Noroeste.
Como eu dizia, tudo mudou, até os “hábitos” da natureza... porca pipa! Antigamente (cinco a seis décadas), os invernos aqui em nossa terrinha eram mais chuvosos, mais frios. Emendavam-se dias e dias de garoa e frio, ventinho cortante, que gelava as orelhas. Os verões eram marcados por chuvas torrenciais, seguidas depois por 10, 15 dias de chuvas finas e intermitentes.
Na segunda quinzena de julho, os agricultores já se ocupavam do preparo da terra para o plantio do milho, do feijão, assim que a lua fosse propícia, em agosto. Hoje, isso é feito no final de setembro, para plantio em outubro, quero dizer, quanto às chuvas, porque a Lua, essa já foi esquecida há muito. Os córregos eram mais caudalosos, tinham mais vida. Os mesmos córregos em que brincávamos, em que fazíamos nossos tanques para uns mergulhos, nos dias quentes, e que no dia seguinte já as águas os havia arrombado, hoje parecem raquíticos, envergonhados. Sem se falar na poluição!
Até os pássaros... Ah, os pássaros! Cadê os pintassilgos? Cadê os azulões, os canários-da-terra. Por onde andarão os tuins, os pássaros-pretos? O que teria havido com os curiós (ou avinhados)? Ah, quanta saudade! Os pintassilgos, de plumagem colorida, chegavam aos bandos, para comer da flor do assa-peixe. Os soberbos azulões e curiós que encantavam o ermo dos brejões.
Os bandinhos de tuins que cruzavam o céu, em vôo sinuoso, tagarelando alegremente. Os canários-da-terra, estes só faltavam entrar no interior das casas, porque nas varandas até faziam ninho. As perdizes, em dias bruscos, piando melancolicamente pelas pastagens. E o pássaro-preto (não é o chupim), o seresteiro das manhãs e dos entardeceres, cadê? Ah, quanta saudade! De alguns desses espécimes ainda se tem notícia, mas de outros nem mais se houve falar. Que tristeza!
Cadê as autoridades responsáveis pelo controle ambiental? Não basta vigiar o que resta. É preciso e ainda é tempo de resgatar muito desses pássaros, porque eles ainda estão presentes em algumas regiões. Assim como não basta apoderar-se dos que estão engaiolados e soltá-los aleatoriamente, como acontece. É preciso readaptá-los à natureza e soltá-los em regiões propícias. Quando não se pode fazer tudo, pelo menos que se faça o que é certo.
E por falar em saudade, é bom também um rápido mergulho na política: Com Franciscato em Brasília, Bauru recebia favores; com Sbeghen na prefeitura, Bauru era “cesta de flores”. Por hoje é só. Poderia me alongar, mas acho que minha rabuja já está de bom tamanho.
Roldão Senger