Turismo

Arraial d’Ajuda

Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Ela pertence a Porto Seguro, mas nada tem a ver com essa cidade. Enquanto em Porto ouve-se axé, toma-se capeta e dança-se lambada, em Arraial d’Ajuda o ritmo é bem mais suave e muito mais apurado. Na Cabana da Maré, na Praia de Pitinga, ou nos jardins paradisíacos e porque não dizer afrodisíacos do Arraial d’ Ajuda Eco Resort - o hotel é perfeito para lua-de-mel -, a MPB encanta, embala, aquece o coração. Tudo perfeito. Tudo envolvendo uma paz infinita tão grande que é praticamente impossível bater qualquer vontade de atravessar o rio Buranhém rumo ao agito.

Arraial é intimista, chique, exótica, diferente. Um lugar encantado que continua livre da massificação. Tem personalidade própria. E forte. Não se deixa levar por nada e por ninguém. Somente consegue sobreviver ao seu jogo de cintura, à sua malícia inocente, quem é como ela.

Muitos vão. Muitos voltam. Não se adaptam, ou melhor, não são aceitos por ela. Sorte de quem se sentiu abrigado, construiu uma outra vida e hoje abre as suas portas para novos visitantes. Como Jimmi Grace, que há décadas cruza os céus do mundo em jatos da Delta Airlines - rumo à Malásia, Japão, Europa –, viveu anos no Havai, mas escolheu Arraial para montar seu lar, doce lar.

Para nós, turistas acidentais brasileiros, é difícil entender como um americano que poderia se interessar por qualquer outro lugar do planeta foi querer montar ali, ao lado da Pousada Manacá – que é uma graça – seu porto seguro. A resposta vem em português carregado de sotaque: a alegria do povo brasileiro. Jimmi ama o Brasil e conhece cada palmo desse chão. Muito mais do que nós, nascidos e criados aqui.

Para vivenciar e viver no Sul da Bahia, em Arraial, vai acumulando folgas na companhia aérea. Viaja, viaja, viaja. E depois, durante 10-12 dias, relaxa ouvindo as ondas do mar em seu “rancho” sagrado, ali, na Bahia.

Há cinco anos é morador oficial da vila, onde fez e faz amigos. Amigos que vieram bem antes, há décadas. Como o casal mais que vinte Samira e Jaime Martins, que deixaram Alphaville, em São Paulo, rumo ao paraíso tropical e nunca mais voltaram.

Os dois são a prova de que Arraial oferece qualidade de vida. Cinqüentões, aparentam muito menos. Isto mostra que Arraial faz muito bem para a pele e para a mente. Mas até chegarem a esse índice zerado de estresse, tiveram que fazer a sua parte para que a vila os aceitasse.

A família se encantou com Arraial durante férias de verão prazerosas, lá pelos anos 90. Decidiram que ali seria seu novo lar. Samira vendeu um café que tinha no condomínio chique da Castelo Branco – ponto com congestionamentos constantes - e Jaime pediu demissão de uma grande empresa. Abdicou dos ternos Armani e das gravatas francesas e colocou, literalmente, a mão na massa. A princípio abriram um restaurante. Depois uma pousada, a agradabilíssima Cheiro-Verde (há pacotes da CVC para lá, com transporte aéreo).

No alto de seus mais de 1,90 metro, ele conta um episódio que poderia ter freado, de cara, seu “sonho”. O vaso sanitário de um dos apartamentos da pousada entupiu e naquela época não existia “maridos de aluguel”. Munido de um imenso saco plástico, grosso e resistente, enfiou a mão no fundo da “privada” para desobstruir o ralo.

“O que eu, um executivo paulista que poderia estar num gabinete com ar-condicionado e outras mordomias estava fazendo nesse lugar, com a mão na “b....”? Apesar da cena hilária, não voltou atrás. Ao contrário, seguiu com fé fazendo daquele o seu lugar perfeito para viver.

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