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O que será de nós neste espetáculo?


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Bolsa sobe, bolsa desce. Dólar dispara. Bancos quebram. Sentimento de pavor diante do incompreendido sugere a guarda do dinheiro sob o colchão. O capitalismo vai para a UTI e, a cada boletim da equipe de plantão, evidencia-se a iminente morte deste modelo que, ao longo dos últimos 30 anos, gerou o mais incômodo muro a separar uns poucos ricos de um lado e uma multidão de pobres do outro. Na periferia de Santo André, SP, 100 horas de loucura, sob pretexto de surto amoroso, resultou na morte da menina-refém, no ferimento da amiga-refém que saiu e voltou, na prisão do criminoso e, de quebra, na descoberta do pai foragido da polícia do Nordeste, acusado de muitos crimes.

O conjunto suburbano de prédios baixos, cercado pela Polícia foi, durante mais de 100 horas, e continua sendo assunto nacional. Mais uma vez a imprensa pesou a mão. Fez celebridade um rapaz pobre, desequilibrado, sem futuro. O pretexto de retomar um namoro adolescente de periferia não dava consistência para o fim da ação. Afinal, a situação era vazia, boba, e a ausência de reivindicação impedia uma negociação. Por isso, prolongou-se. E o rapaz pobre da periferia ao, insistente e ininterruptamente, ver-se pela televisão, acreditou-se poderoso, célebre, importante de um jeito que sabia jamais seria. Medo e potência misturados não o permitiam colocar o ponto final na história, que ele iniciou num desvario.

A exploração do tema pela mídia gerou um fenômeno de massa. Uma fila de 36 mil pessoas foi ao velório da menina, devidamente transmitido ao vivo via satélite. Sob os aplausos de 12 mil pessoas ela foi enterrada. Aplausos? Sim. Aplausos. Dentre estes milhares de almas, não se viu a do pai da menina morta, cujo nome é falso, prestes a sair pela tangente ao ser descoberto. Cúmulo do azar.

Coberto o caixão, os helicópteros das emissoras de todas as mídias, que sobrevoavam o cemitério sumiram. Agora os holofotes buscam o balbuciar limítrofe do ex-celebridade encarcerado e da amiga que foi, voltou e saiu com um tiro na boca, ainda no hospital. Buscam também, o mais emocionalmente possível, os receptores dos órgãos doados, onde se dá a continuidade da vida da menina, vítima de um maluco estimulado. A imprensa sedenta de sangue e culpa, garantia de audiência elevada e anunciantes satisfeitos, busca na polícia erros que prolonguem o debate: porque um atirador de elite, camuflado, com uma única bala no rifle de alta precisão não estourou os miolos do então quase-celebridade logo no primeiro dia do cativeiro? Como está a família? O tiro foi antes ou depois? Perguntas imbecis se sucederam nas coletivas com policiais e com médicos. Triste papel de produzir sensacionalismo que desinforma, deseduca, desloca a atenção. O assunto ganhou prioridade e destaque também nos jornais de fim de noite, em emissoras de televisão a cabo, teoricamente de audiência mais elitizada econômica e intelectualmente. Pobre de nós, à mercê desse tipo de jornalismo.

O autor, Luiz Márcio Ribeiro Caldas Junior, é comunicador e escritor

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