O título acima é a afirmação de Jayati Ghosh, professora na JNU (Jawaharlal Nehru University), uma das fundadoras da Economic Research Foundation de Nova Deli. Quem paga é a população. Os sacerdotes do deus dinheiro desde sempre perfilaram-se para garantir seus lucros próprios, deles e dos banqueiros. A bancarrota não importa. Profetizaram a capacidade mágica do deus mercado regular tudo a seu tempo, garantindo-lhes lucros astronômicos. Com prognósticos quase sempre resultando em equívocos, continuam sendo incensados nos altares do chamado livre mercado que lhes garantem lucros às custas da miséria de multidões e da degradação ambiental.
O Estado, bode expiatório dos fracassos financeiros, é chamado a cobrir o rombo causado por perdulários executivos que até ontem o condenavam como estorvo à excelsa livre regulação do mercado. A população paga o preço da incompetência e da ganância e, estarrecida, não entende porque o Estado - com o seu, com o nosso recurso - é chamado a socorrer quem sempre lucrou às nossas custas. Sente-se ludibriada e ao mesmo tempo ignorante por não entender tamanho absurdo.
Por outro lado, os entendidos, os inabaláveis sábios da economia, os chamados executivos, têm a certeza de que o Estado, por eles tão execrado, garantirá os milhões de dólares para que evitem o estresse descansando nos mais sofisticados balneários. Esses playboys, de Chicago ou não, brincam com o dinheiro alheio e com a vida de bilhões de pessoas. Pontificam, do alto de suas cátedras, as virtudes do sacrossanto mercado que tudo resolveria, ou melhor, garantiria. Garantiu a Martin Sullivan, ex-presidente a AIG, US$ 5 milhões pela irresponsabilidade de causar um prejuízo de US$ 5 bilhões, a Joseph Cassano US$ 1 milhão pela consultoria que ocultou a real contabilidade da mesma seguradora.
O jornalista Antonio Luiz Costa informa que Kerry Killinger, ex-presidente do Washington Mutual, recebeu US$ 22 milhões de indenização após quase levar à falência. Seu sucessor, Alan Fishman, consumou a falência e saiu com US$ 18,5 milhões. Richard Fuld Jr. Abocanhou US$ 300 milhões após levar à bancarrota o Lehman Brothers, enquanto os funcionários perderam US$ 10 bilhões com a falência.
É assim que agora o Estado é chamado a socorrer, com urgência, os bancos falidos, para que seus executivos possam auferir de milhões de dólares pelo “bom desempenho”. Para a população, resta o desemprego, o ainda maior arrocho salarial, o desespero. Nós, mulheres, somos as mais atingidas pela perda da soberania alimentar, pelo desemprego, pela mercantilização de seus corpos e de suas vidas, assim como dos bens comuns. A folia, enquanto rendia milhões aos executivos e especuladores, exorcizou o Estado como a um demônio. Quando já não foi possível disfarçar o indisfarçável, chama o Estado para socializar os prejuízos. Há um limite advindo das próprias contradições do sistema até há pouco hegemônico. A crise foi sendo adiada, maquiada por falsas contabilidades dos meninos que brincaram até não mais poder. Por isso, Jayati Ghosh defende uma “sistemática regulação estatal das finanças”, o controle público do crédito. Segundo a declaração das participantes do VII Encontro Internacional da Marcha Mundial das Mulheres, reunidas na Galícia em outubro último, precisamos de um outro sistema econômico, precisamos criar estruturas de economia solidária, de cooperativas de produção autônomas, de um banco do hemisfério sul a serviço de um desenvolvimento ecológico, igualitário e sustentável. Assim mesmo, no curto prazo, dificilmente evitará o desemprego de mais 200 milhões nos próximos 14 meses, conforme prevê Juan Somavia, diretor geral da Organização Internacional do Trabalho.
A autora, Iolanda Toshie Ide, é professora aposentada da Unesp e colaboradora de Opinião