Tribuna do Leitor

Ao sr. Paulo Nathanael Pereira de Souza


| Tempo de leitura: 3 min

Gostei muito de ver uma reportagem no Jornal da Cidade falando sobre educação, principalmente envolvendo professor e didática. Fiz questão de lê-la, acreditando que, feita por um doutor em educação, os problemas educacionais estariam bem contemplados. Infelizmente, ao ler a reportagem, me decepcionei.

Resolvi, assim como o sr., demonstrar minha opinião para que pudéssemos debater de forma crítica sobre o assunto. O sr. deu sua opinião pessoal diante de vários estudos, não é? Da mesma forma, gostaria de comentar essa reportagem.

Sou professora há 3 anos da rede pública estadual, formada em Pedagogia na Unesp de Bauru e especialista em Psicopedagogia pela USC. Sempre me preocupei com o fracasso educacional e, por isso, leio muito e estudo vários casos relacionados ao ensino e aprendizagem. Em nenhum momento, em qualquer âmbito de pesquisa educacional e também na prática, verifiquei a afirmação feita pelo sr. de que “a progressão automática leva o professor a não ensinar, o aluno a não aprender e tudo fica bem”... Essa, com certeza, foi uma afirmação infeliz ou então mal colocada.

O sr. pegou alguns casos separados e generalizou. Como estudioso, pesquisador, o sr. sabe que isso é inaceitável. Há casos, sim, de professores que não ensinam, mas a maioria tenta realizar seu trabalho de forma comprometida. Pelo menos é o que vê quem está na prática. Os problemas que envolvem o fracasso escolar estão muito mais acima dessa realidade mostrada pelo sr.

Lendo essa reportagem, me senti muito ofendida, pois desde o começo do ano me desdobro em 4, 5, 10 partes para tentar ensinar alguma coisa para alguns alunos que, infelizmente, não têm vontade e/ou não têm condições intelectuais “normais” para aprendizagem. Acredito, sim, que há falhas na formação docente, mas isso é uma questão complexa que o sr. sabe que não depende de nós, vem “de cima para baixo”...

Mesmo com tantos déficits, vejo os professores, em sua maioria, correr atrás de cursos de capacitação, de experiências positivas para compartilhar e melhorar sua prática pedagógica. Portanto, nós não fingimos que ensinamos, nós buscamos meios de ensino que certas vezes são positivas e outras negativas, devido a essa falha que o sr. mesmo coloca, mas ensinar, nós ensinamos. As causas para a não aprendizagem não podem ser reduzidas dessa forma tão simplória.

Dizer que não sabemos o que fazer em sala de aula é mesma coisa que nos chamarmos de “tapados”. Se estudamos muito, se entendemos as teorias, saber transpor esse conhecimento em prática é uma questão de tempo e experiência, assim como é em qualquer emprego. Você não sai da faculdade sendo o melhor profissional, você precisa colocar os conhecimentos em prática... Através de tentativas, observações, experiências bem sucedidas ou não, vamos achando a melhor forma de ensinar, de colocar os conhecimentos em prática, transpondo-o a realidade do aluno e a sua capacidade de aprender. Somente escrevi para explicitar minha indignação, pois comentários como este, feitos de forma generalizada, fazem com que a profissão professor seja cada vez mais desvalorizada, pois quem lê, pessoas alheias ao meio educacional, não têm uma visão do todo e levam as falas ao pé da letra.

É importante ressaltar que o jornal é aberto para todos, os mais críticos e os menos críticos, por isso as afirmações, feitas nele, precisam ser bem explicadinhas, levando em consideração todas as nuances. Espero que entenda a crítica que não foi para ofender, mas sim para debater um ponto de vista. Obrigada pelo tempo dedicado a leitura desta carta.

Aline C. Pedrozo Pereira - professora

Comentários

Comentários