Jocelene de Assis Ignácio, 37 anos, ainda lembra com tristeza do dia em que, há 13 anos, entrou no banheiro da Pontifícia Universidade Católica (PUC), universidade de elite na zona sul do Rio de Janeiro, e viu símbolos nazistas desenhados na parede ao lado da frase: “Os alunos da Baixada vão baixar o coeficiente de notas da PUC”. “Eles, brancos de classe média, eram os filhos da PUC. Nós éramos os filhos bastardos da PUC”, compara.
“Mas eles se deram mal. Ninguém ia sair lá do pé da Serra de Petrópolis, gastar quatro horas por dia no trem e no ônibus, para tirar nota cinco na universidade. A gente sempre estudou muito e perseguiu notas altas”, afirma Jocelene.
Negra, caçula dos sete filhos de uma servente, órfã de pai desde os 9 meses de idade e moradora de Mesquita, na Baixada Fluminense, um bolsão de pobreza na periferia do Rio, Jocelene integrou a primeira turma de alunos pobres a entrar na PUC, em 1995, num programa que precedeu a discussão sobre cotas nas universidades brasileiras. Foi um acordo entre frei David Santos, fundador do Pré-Vestibular para Negros e Carentes (PVNC), e a PUC que garantiu a bolsa para os alunos que passassem no vestibular.
A discussão sobre a política de cotas nas universidades brasileiras ainda está longe de acabar. Tramita no Congresso Nacional há nove anos, sem prazo para votação, um projeto que reserva 50% das vagas nas universidades federais para alunos da rede pública. O debate é acalorado. De um lado, fala-se em racismo e justiça social. De outro, argumenta-se que a reserva de cotas pode baixar o nível do ensino. Mesmo nas 35 instituições que já aderiram às cotas para inclusão de alunos pobres, ainda não há estudos suficientes sobre a eficácia do sistema.
Nas duas universidades cariocas que têm sistema de cotas há cinco anos, PUC (privada) e Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) (pública), há alguns sinais do resultado da convivência entre alunos pobres, de classe média e da elite carioca dentro do câmpus. As taxas de aprovação nas disciplinas e de evasão dos alunos pobres são iguais às dos outros alunos. A convivência dentro da universidade entre bolsistas ou cotistas, de um lado, e professores e alunos tradicionais, de outro, ainda é conflituosa.
E não resta dúvida de que a passagem pela universidade transforma a vida, para melhor, dos alunos beneficiados. Andréia Clapp Salvador, professora de serviço social da PUC, acabou de apresentar sua tese de doutorado sobre o assunto. Em “Estudo da Política de Inserção de Alunos Pobres e Negros na PUC-Rio”, ela conta como foi a passagem pela universidade e o que aconteceu com os jovens que entraram pelo sistema de bolsas entre 1993 e 2001.
“Eles passaram por muitas dificuldades, sobretudo econômicas, e sofreram o que eles chamam de preconceito de nota, pois achavam que alguns professores não confiavam em sua capacidade de aprendizado. Mas formaram-se no prazo normal e saíram daqui trabalhando nas profissões que escolheram”, diz.
“Chama a atenção também o fato de eles serem muito politizados e extremamente solidários entre si.” Os primeiros alunos bolsistas da PUC, todos da área social ou de humanas, formaram uma espécie de rede de proteção para sobreviver dentro do câmpus. Quem tinha dinheiro comprava um prato no bandejão, que era dividido com mais dois amigos. Quem era chamado para um estágio levava junto outro bolsista. Um lia o trabalho do outro. Alugavam uma quitinete de 30 metros quadrados no edifício Minhocão, ao lado da PUC, onde dormiam até nove alunos que não tinham dinheiro para passagem. Andavam sempre juntos. Organizaram a Semana de Consciência Negra na PUC, despertando manifestações dos alunos tradicionais, que ameaçaram fazer a Semana de Consciência Branca.
Jocelene é uma das lideranças dessa rede. Entrou para o curso de serviço social, assim como a maioria dos alunos do PVNC daquele ano. “Só duas alunas na turma não eram bolsistas”, lembra. Tomou tanto gosto pelo estudo que depois fez especialização na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestrado na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) e agora cursa o doutorado na PUC. Com tantos diplomas, passou no concurso da Prefeitura do Rio para assistente social. Ganha algo em torno de R$ 2.500,00, um salário inimaginável para todas as suas amigas de infância. Umas são empregadas domésticas, outras caixas de farmácia. A maioria está desempregada.
Jocelene, que agora vive num apartamento alugado na Lapa, Centro do Rio, convenceu duas irmãs a fazerem faculdade. Sonha ainda em fazer pós-doutorado na França e comprar um apartamento próprio, mas acha que nunca vai parar de brigar. “Não tenho paz nunca. O tempo todo eu tenho de provar que sou capaz. Foi assim na PUC. É assim no mercado de trabalho.”
A vida não é mais fácil na Uerj. Mariana Ferreira, aluna de direito da primeira turma de cotistas, lembra dos embates em sala. “As aulas eram muito efervescentes. A gente chegou com o pé na porta. Não entramos pedindo licença”, lembra. “Em algumas turmas no curso de direito ainda hoje existe uma divisão. De um lado da sala ficam os cotistas, do outro os não-cotistas. É muito triste.”
Mesmo assim, Mariana continua achando que o sistema é o melhor para promover mudança social, mas reconhece que a vida fora da universidade é difícil. “O diploma de direito da Uerj abre muitas portas, mas mulher negra, de cabelo trançado como eu não consegue estágio fácil em escritório. Só consegui em setor público.”