A espera por atendimentos a especialistas em Bauru volta a assustar os pacientes dependentes do Sistema Único de Saúde (SUS) na cidade. De acordo com a prefeitura, 3,9 mil pessoas esperam atendimento em cinco especialidades médicas (veja quadro ao lado). Nos últimos dois anos, a cidade enfrenta o grave problema de espera por consultas. A fila chegou a ter 15 mil nomes, caiu para 9 mil no final de 2006. Mas após inúmeras ações, desenvolvidas pelo Ministério Público, Secretaria Municipal de Saúde, Departamento Regional de Saúde (DRS), Conselho Regional de Medicina (CRM) e Conselho Municipal de Saúde, a espera de mais de um ano por alguns atendimentos ainda persiste.
O Jornal da Cidade acompanha o problema da falta de vagas para consultas a especialistas em Bauru desde 2006, quando o caso atingiu contornos críticos. O promotor de Justiça de Defesa da Cidadania e Patrimônio Público, Fernando Masseli Helene, passou a convocar encontros mensais para discutir o tema em seu gabinete, reunindo representantes de todos os segmentos da Saúde na cidade.
A situação foi amenizada e a expectativa era que a fila não tomasse proporções gigantescas novamente. Porém, dados da Secretaria Municipal de Saúde levantados a pedido do JC, mostram que a realidade para milhares de bauruenses voltou a ser negativa. O número de pacientes aguardando uma consulta com neurologista já ultrapassou os mil pacientes. A espera por um gastroenterologista ultrapassa as sete centenas de pessoas e um usuário que precisa de atendimento para averiguar problemas vasculares deve esperar sua vez, pois são 871 pacientes à sua frente.
A explicação para essa fila passa pela falta de médicos que decidem atender pelo SUS, já que o salário pago na rede privada é muito mais atraente. A demanda também pode ser explicada pelas ações preventivas, que ainda são insuficientes frente ao tamanho da cidade. Bauru, que ultrapassa os 365 mil habitantes, conta com apenas sete equipes do Programa Saúde da Família (PSF) – até outubro de 2006 era apenas uma.
O coordenador do Conselho Municipal de Saúde, Cláudio da Silva Gomes, destaca que a fila nunca deixou de existir. “É que quando o problema está perto de se agravar novamente, todo mundo se reúne na procuradoria para resolver”, afirma.
A Secretaria de Estado da Saúde informou que a média mensal, entre novas consultas e retornos, é de 47 vagas para gastroenterologia, 194 para neurologia e 28 para vascular. Porém, a Secretaria Municipal e Saúde informou por meio da assessoria de comunicação da prefeitura que o número de novos atendimentos é bem menor. O número de consultas e exames especializados é definido mensalmente pelo Governo, por meio do DRS-6. Cabe ao município fazer o agendamento com base na quantidade de vagas ofertada.
Segundo os dados repassados, em média, o governo do Estado oferece cinco consultas mensais de gastro, sete de neuro e 3 de vascular. Todas essas especialidades são atendidas no Hospital Estadual, que divide com a Associação Hospitalar de Bauru, as consultas a especialistas oferecidas pelo SUS.
Para Gomes, o descompasso entre as duas instituições é explicada pelas visões diferentes que elas mantém sobre as vagas. Enquanto para o Estado qualquer novo atendimento coberto pelo SUS na especialidade é relacionado, para a prefeitura, somente novos pacientes aceitos entram nos cálculos.
O Secretário Municipal de Saúde, Mário Ramos, observa que quando um paciente agendado para um neurologista passa pela consulta com esse especialista, mas depois é direcionado para um cardiologista, ele não volta ao final da fina e espera tudo de novo. É dado continuidade ao tratamento e esse número não é passado à prefeitura.
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Espera
No final do ano passado, o vigilante Benedito Carlos Barbosa Caraça, 39 anos, procurou a unidade básica da Vila independência. Após a consulta com o clínico geral, descobriu que precisava passar por um oftalmologista. “Depois da consulta, fui até a assistente social, que anotou meu nome, endereço, telefone e disse que assim que tivesse vaga, iria me chamar. Passou um mês, dois, sete e quase um ano depois, nada”, conta.
A visão embaçada e as dores de cabeça continuam. “Pelo SUS, estou vendo que é quase impossível ser atendido. Estou pensando em pagar uma consulta”, conta. Para ele, a situação é grave. “É um descaso. A gente se sente impotente”, lamenta.
Mas depois de passar por uma consulta, o usuário ainda entra em uma segunda fila: a espera pelo exame. Maria da Silva Lopes, 64 anos, operou a tireóide no ano passado. “Todo mês vou ao posto passar por consulta. Mas da última vez, me pediram um exame. A moça me falou que não tem nem previsão de quando eu vou fazer”, conta.