Os bois caminham em fila indiana por um corredor que vai se tornando cada vez mais estreito, até que chegam a uma espécie de porta. Se eles pudessem pensar (e muita gente acredita que eles são capazes de pensar), talvez imaginassem o que está escondido por trás daquela folha de metal. Mal sabem eles que estão a alguns passos do paraíso.
A viagem dos bovinos rumo ao infinito é curta e quase sem sofrimento - uma via, digamos, indolorosa. Uma pistola pneumática libera uma pancada na cabeça do boi, que cai inconsciente. O animal é lavado, pendurado de ponta-cabeça e levado a um lugar onde levará uma facada fatal no pescoço. Sem gritos... Sem dores? Ele, o único que poderia nos elucidar essa dúvida, já não pode mais responder, pois está morto.
Mais um boi entra no recinto de imobilização e levanta a cabeça o máximo que pode, talvez tentando enxergar melhor um rapaz que se encontra do outro lado da mureta. O funcionário aproveita para colocar a pistola de insensibilização na testa do animal e “zaz” - lá está outro corpo estendido no chão. “Por que será que ele facilitou tanto as coisas?”, digo para mim mesmo, enquanto viro o rosto de lado a fim de não enxergar a queda do animal.
Estou no Frigorífico Mondelli, localizado nas imediações do Núcleo Beija-Flor, zona norte de Bauru, numa manhã de quinta-feira. O céu está claro e um vento incômodo agita os eucaliptos que cercam o lugar. Estou ali para conhecer de perto como funciona o abate humanitário. De acordo com informações fornecidas pela própria empresa, no local costumam ser mortos, diariamente, cerca de 650 animais (ou 19 mil ao ano, aproximadamente), entre bois e porcos.
Antes de conhecer as instalações destinadas aos animais, preciso trocar de roupa. Os tênis e o jeans dão lugar a um par de botas de borracha e uma vestimenta branca que mais lembra o uniforme de um cirurgião. Um capacete e uma touca de pano que cobre meu cabelo completam o conjunto.
Fico sabendo que os homens que circulam pelo local onde é feito o abate não podem sequer deixar a barba. No meu caso, porém, não haveria problema, uma vez que eu não entraria em contato direto com a carne.
A primeira parada é no cercado onde são mantidos os suínos. Embora o lugar seja muito limpo, os porcos carregam aquele cheiro forte e nauseante que lhes é característico. Olho para eles e fico meio pensativo. Um deles sai correndo por entre os companheiros, chega perto do muro e começa a me “encarar”. Mas como pode um porco fitar alguém?
Saímos dali (eu e a estagiária que me acompanha) e seguimos rumo ao recinto destinado aos bovinos. Ali, eles ficam separados em grupos de acordo com o sexo e a idade: bois inteiros de um lado, capões de outro, bezerros mais adiante e vacas lá na frente.
Os bezerros se afastam assustados quando percebem que estamos nos aproximando pela passarela. Eles estão descansando, à espera do abate. São jovens e têm a carne tenra e suculenta. Mortos, irão para a prateleira dos supermercados sob a alcunha de “novilhos precoces”.
O corredor
O corredor que leva ao recinto de insensibilização é uma espécie de rampa com piso antiderrapante. A estrutura conta com um sistema de portas que são fechadas na medida em que o gado vai avançando. Quando se vêem fechados, os bois ficam confusos e não sabem se vão adiante ou se retrocedem. Na dúvida, preferem permanecer imóveis. Nessas horas, funcionários munidos de bastões elétricos que emitem choques de baixa intensidade (o frigorífico em questão utiliza descargas entre dez e 15 volts, embora a legislação autorize até 40 volts).
Há casos em que os bastões são substituídos por bandeiras, como aquelas utilizadas nos aeroportos pelos controladores de vôo. “O ideal é que o animal siga por conta própria. Os instrumentos só são usados quando não há outro meio de fazê-lo seguir adiante”, explica o veterinário Luiz Henrique Cabral da Silva, supervisor de controle de qualidade da empresa.
Continuo caminhando ao lado do corredor, enquanto acompanho os últimos instantes daqueles animais. De quando em quando, algum me dirige um olhar semelhante ao que o porco me havia lançado, misto de pedido de socorro e autopiedade. Ai se eles pudessem falar...
No recinto de insensibilização as coisas são rápidas e menos traumáticas do que eu poderia imaginar. Uma ou outra coisa pode parecer mais chocante para aqueles menos acostumados a cenas tão fortes: a enorme quantidade de sangue que jorra do pescoço do animal, no momento em que ele tem seus vasos sangüíneos secionados; os músculos do boi que se contraem de maneira involuntária, por conta dos choques que ele recebe (para agilizar o processo da sangria); o instante em que o couro do bicho é retirado.
No fim, o boi se converteu em diversos pedaços de carne, uns mais nobres, outros menos. A visita chega ao fim, e estou faminto. No almoço, há frango e peixe no cardápio. Dou a primeira mordida numa coxa e sinto uma espécie de nó na garganta quando começo a engolir. Depois, a coisa vai se tornando normal e como sem culpa, ainda que com a consciência pesada. Todos aqueles olhares... Como conviver com a lembrança deles, daqui por diante?