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A abolição inconclusa


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Meu amigo veio mostrar, com natural orgulho, a foto de umas 50 pessoas empossadas na carreira da magistratura estadual do Rio de Janeiro. Entre elas estava o seu filho, que conheci ainda no colo da mãe. Méritos à parte, a foto trazia uma dupla constatação: positivamente, as mulheres estavam em maior número, mas, não havia um preto entre eles. Negro, ali, só se via na cor das togas. Joaquim Nabuco tinha suas razões em “O abolicionista”, para não ser tão otimista com o fim dos 300 anos de escravidão no Brasil. Temia pela necessidade de mais três séculos para que fosse desbastada a maldição da cor. Somente mediante uma educação “viril e séria” o negro poderia vencer, ainda assim lentamente, “a estratificação gerada pelo despotismo, superstição e ignorância”.

Na quarta-feira festejou-se o “Dia Nacional da Consciência Negra”, com muito samba, batuque e feriado em 350 cidades brasileiras. O presidente Lula inaugurava no Rio de Janeiro a estátua de João Cândido, o chamado “almirante negro” - de verdade, não se tem notícia de nenhum - por ter liderado em 1910 a Revolta da Chibata. Os marinheiros do encouraçado Minas Gerais amotinaram-se, exigindo abolição dos castigos corporais, diminuição das horas de trabalho e aumento de vencimentos. O movimento terminou com a rendição dos revoltosos, muitos dos quais morreram na prisão no governo Hermes da Fonseca. João Cândido morreu na miséria e esquecido. Agora virou herói de bronze.

No mesmo dia o IBGE divulgava que a pobreza e a indigência são três vezes maiores entre os “afrodescedentes”. A palavra, como diria, é um eufemismo para suavizar a expressão “negrada”. Em 1695, Zumbi foi degolado pelos bandeirantes na Serra da Barriga, quando liderava a União dos Palmares, símbolo da resistência negra contra a escravidão. Há quem diga que ele se suicidou, atirando-se num abismo. Outros ainda o “denigrem” (a própria palavra já é preconceituosa) dizendo que Zumbi era homossexual. Ele mesmo manteria escravos no quilombo.

Nada a comemorar no “Dia Da Consciência Negra”. Que consciência? Mais um feriado. O jargão de “democracia racial” foi inventado na década de 30 do século passado, para simbolizar o destino idílico do Brasil frente a outras nações. Durou o tempo do entusiasmo nacionalista da ditadura Vargas. Experimentou uma sobrevida artificial durante os governos militares, de 1964-1984. Acabou como mais um dos mitos nacionais que não deram certo. Ainda aparecem um ou outro querendo soprar novo ânimo à tese de Gilberto Freire de Casa-Grande & Senzala. Em vão. Democracia racial no Brasil é coisa de branco. Ao interpretarem o Brasil moderno, Florestan Fernandes e Caio Prado Jr passaram bem longe do mito da convivência pacífica que Freire viu, a partir do intercâmbio sexual entre senhores brancos e escravos negros. Florestan investigou as condições sociais dos negros e mulatos de São Paulo, denunciando há 35 anos o quadro de desigualdade que se perpetua muito alem da abolição da escravatura. A mestiçagem, que para Freire é um sinal da queda das barreiras raciais, é para Florestan um artifício social que só é aceito quando inevitável. Entenda-se, nas limitações das escolhas de parceiros sexuais. E, mesmo assim, sob a desculpa de que favorece o “branqueamento” da população.

As cotas raciais nas universidades públicas estão longe de dar conta do grande problema da desigualdade racial. Mas, são necessárias. Este ano a população negra será maior do que a branca no Brasil (Ipea). O sistema de cotas é instrumento de valorização da população negra e importante passo para quebrar o ciclo vicioso do racismo. Preconceito se combate com ações afirmativas, que permitem que populações tenham acesso a melhor qualidade de vida. As medidas de inclusão deveriam começar nos ensinos fundamental e médio, como parte do sucesso para o sistema de cotas raciais nas universidades. É evidente que, se tivéssemos escola pública de qualidade para todos, o quadro seria diferente e haveria mais alunos ingressando na universidade. Enquanto isto não acontece, as cotas são medidas práticas. No máximo em 10 anos, depois de todas as universidades brasileiras adotarem as cotas, poderemos dar fim a esse tipo de política no Brasil. Será o tempo para mudar a realidade brasileira. Quando negros começarem a sair na “fotografia” nos pontos-chave da sociedade; quando crianças negras olharem negros investidos no poder e conseguirem vislumbrar um futuro, mudanças começarão a acontecer. As cotas são um paliativo. Quando acabar a desigualdade, não haverá mais necessidade.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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