Quando criança, nunca cultivei o hábito de escrever ao Papai Noel (eu sempre imaginava que, dias depois, meu pedido fosse voltar, repleto de anotações em vermelho e com um 4,5 no alto da folha). Também não guardo a lembrança de acordar no meio da noite e não conseguir dormir por medo do bicho-papão.
Não há grandes histórias acerca dos meus grandes medos – talvez até porque eu não os alimentasse, e, embora fossem muitos, nenhum deles era tão grande assim. Aos 9 anos eu já aprendera a não criar expectativas em relação a muita coisa, e não tropeçar na mula-sem-cabeça pelo corredor em noites chuvosas já era um grande alívio.
Mas há as exceções, é claro: algo que realmente me causou imenso espanto ocorreu quando, numa aula de biologia, vi pela primeira vez uma joaninha ampliada centenas de vezes no laboratório da escola. Foi uma decepção tremenda. Eu sempre considerara as joaninhas seres extremamente simpáticos e cativantes. Tipo urso panda e tal. Mas não. Vista de muito perto, ela era – e é – horripilante. Cascuda, conserva uma carranca intimidadora que parece sempre perguntar: “Que é que há? vai encarar?”. Sim, ela não fica devendo nada para os besouros assassinos do Himalaia e, se bobear, é prima de primeiro grau das baratas de cemitério.
Tudo bem que essa “descoberta” não alterou minha vida em muita coisa (nem me deixou mais chata e ranzinza, como você deve estar imaginando), a não ser pelo fato de haver aumentado macroscopicamente em mim a certeza de que há milhares de coisas neste mundo que são dessa forma: legais, sublimes e bacanas, mas apenas de longe. E há uma necessidade quase imutável de que assim permaneçam, pois a proximidade e a descoberta de algumas verdades não têm outra razão a não ser o desencanto.
HJP
Bauru, outubro de 2008