Cultura

Sobre mundos: Seja o que Deus quiser!

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Cacá é uma VJ da MTV que, ao realizar uma matéria com os moradores do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, acaba conhecendo o talentoso negro PQD. A partir deste encontro, não é bem a jovem que entra em uma enrascada, mas justamente PQD que é forçado a fugir para São Paulo em busca de solucionar um problema com a polícia. Ao chegar, o músico conhece Nando, irmão de Cacá, e Ruth. Os dois descobrem no negro favelado uma alternativa para ganhar dinheiro.

Entre muitas idéias, várias situações são criadas e acabam descrevendo um retrato tipicamente brasileiro: uma juventude de classe média em busca de prazer fácil e imediato, o estigma que os favelados carregam e o papel da mídia que faz da situação mais bizarra um verdadeiro show. O filme de Murilo Salles “Seja o que Deus Quiser!” está entre o real e o surreal, a realidade e o simbólico, exatamente como podemos constatar em nosso universo tupiniquim.

Faz parte da natureza humana a busca inconsciente de prazer duradouro, de permanente felicidade. “Todo prazer anseia por eternidade”, escreveu certa vez Nietzsche. Porém, os momentos de prazer que podemos ter em nossa existência são carentes de durabilidade. Por mais que todo ser humano anseie por uma vida prazerosa, parece ser ilusória a tentativa de uma sensação de felicidade constante. Com certeza, o caminho mais superficial e menos inteligente para se manter o prazer de viver é o hedonista.

Justamente, a alternativa hedonista é a mais estimulada por nossa sociedade de consumo. O ser humano busca a felicidade por um caminho hedonista quando procura maximizar a soma de episódios de prazer em sua vida. O objetivo é o aumento constante de boa comida, boa bebida, de sensações e emoções, enfim, a intensificação das experiências sensitivas. O hedonismo também se manifesta na busca constante de alcançar objetivos individuais. O ser humano não procura viver o prazer no aqui e agora, mas sacrifica parte de seu tempo e energia, para alcançar objetivos como saúde, dinheiro, fama, reconhecimento, poder.

O problema destas duas alternativas hedonistas para a felicidade é o alimento constante da ambição individualista. Esta, além de ser um “saco sem fundo”, conduz o ser humano a uma verdadeira experiência de solidão. Sem dúvida alguma, para a economia de mercado a busca de episódios de prazer ou da realização de objetivos individualistas geram consumo. Porém, a mentalidade hedonista nos leva a uma incansável busca de algo mais e o ser humano nunca alcança a satisfação. Pior que isso, a mentalidade hedonista faz com que o ser humano centre a razão de toda a sua busca em seu próprio ego.

Assim, a necessidade de saúde, dinheiro, fama, reconhecimento, poder é insaciável e possui como objetivo uma única pessoa. Esta busca do prazer individual encontra em sua prática uma grande contradição. Enquanto o ser humano alimentar simplesmente seu amor próprio, a satisfação sempre será demasiadamente efêmera e a necessidade de algo mais contribui para uma sensação frustrante diante da realidade. Neste sentido, podemos compreender a provocante frase de Jesus Cristo: “Quem procurar ganhar sua vida, vai perdê-la, e quem a perder vai conservá-la” (Lc 17, 33).

Jesus não está de forma alguma pregando anulação da personalidade e muito menos submissão, mas apresentando uma fantástica dialética da existência.

O prazer de viver se torna duradouro não através de um caminho hedonista, mas através de uma mentalidade humanista. Esta se inicia com uma busca consciente de realização pessoal, ou seja, com a estimulação e desenvolvimento de todos os nossos dons pessoais. O prazer não se reduz ao simples consumo, mas à satisfação de aprender ampliando seus horizontes e a possibilidade de realizações. A felicidade é alcançada na sensação de se construir uma vida digna, uma personalidade nobre e uma história criativa.

Este crescimento pessoal caminha em direção do verdadeiramente tornar-se uma boa pessoa. Esta mentalidade humanista se completa com a busca do bem-estar de nossos semelhantes. Estar disposto a contribuir para a vida de outros significa o engajamento positivo nas amizades, na família, na educação das novas gerações, na cultura de nosso grupo, na economia de nossa sociedade, realização da justiça e na política. Para se ter a satisfação duradoura de contribuir para a beleza do mundo é necessário que nosso engajamento pelo bem comum seja verdadeiramente sincero.

Porém, o sistema no qual vivemos é tão perspicaz que sem percebermos estão reproduzindo o que ele realmente deseja. Por exemplo, o ser humano pode facilmente ser levado a se engajar pelo bem comum por motivos individualistas (fama, reconhecimento, dinheiro, poder, etc.), o que torna o caminho humanista de prazer uma forma mascarada de hedonismo. Este tipo de reprodução da mentalidade contemporânea descaracteriza qualquer movimento social e acaba também por esvaziar o sentido de vida daqueles que se propõem a um engajamento pelo bem de todos. O resultado é o senso comum acreditar que tudo funciona como Deus quer e a economia de mercado continuar a fazer seus estragos.

* Para entrar em contato com o padre Beto, acesse o site www.padrebeto.com.br.

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