São Paulo - O menino L., 6 anos, sobrevivente da queda do apartamento em Guarulhos (Grande SP), no último dia 18, disse ontem à polícia que a mãe dele, a operadora de caixa Andréia Cristina Bezerra Nóbrega, 31 anos, pulou com ele pela janela em uma tentativa de fugir do pai, o pagodeiro Evandro Correia Filho, 35 anos, que os ameaçava.
Segundo o depoimento anexado ao inquérito, o menino disse: “Ele bateu na minha mãe e pegou uma faca pra matar a gente. Eu acho que ele fez isso porque ele falou que a gente traiu ele”.
De acordo com o delegado Cristiano Engel, a testemunha disse que foi o pai quem cortou a mangueira do gás da cozinha, ameaçando explodir o apartamento. A “traição”, segundo o policial, seria reflexo de um comportamento ciumento do acusado.
A criança fez desenhos enquanto prestava depoimento. Uma das imagens mostra o pai com uma faca ao lado do armário da cozinha. Outra é da mãe o pegando do sofá. A terceira cena retrata o menino no colo da mãe, ambos caindo da janela, segundo o delegado. O menino ainda desenhou um monstro para expressar o que ocorreu depois.
O depoimento durou pouco mais de duas horas e ocorreu no quarto onde o menino estava internado, na pediatria da Santa Casa de Misericórdia da capital. L. estava com bonecos de super-heróis.
No quarto, havia uma psicóloga, uma assistente social, a diretora da pediatria e uma de suas tias - além do delegado e do promotor público Marcelo Oliveira. “Tudo para evitar questionamentos posteriores na Justiça”, disse o delegado, em decorrência da idade da criança.
A maior parte das perguntas foi feita pela psicóloga. “Foi algo longo, a psicóloga conversou muito com ele de outros assuntos e ele estava bem. Assim que ela começou a perguntar sobre o que havia ocorrido, a mudança na fisionomia dele foi drástica”, disse o promotor -que classificou o testemunho da criança como “convincente”.
As explicações do menino serviram, segundo o delegado, para confirmar a versão que a polícia sustenta desde o início do caso. “A mãe se jogou para se salvar e ele (Correia Filho) é o causador.” Engel fará o indiciamento do cantor de pagode por homicídio e tentativa de homicídio.
O advogado criminalista Ricardo de Moraes Cabezon, da OAB-SP, diz que, na qualidade de vítima, o depoimento de L. é válido na Justiça. Para ele, a forma como o depoimento foi tomado é correta.
A polícia marcou para hoje, às 9h, a reconstituição do crime no prédio do Jardim Santa Mena, baseada nas declarações da criança.