Desde seu surgimento, estudiosos questionam o poder do jornalismo em descrever a realidade. Como um repórter, munido apenas de gravador, papel e caneta, poderia contar com fidelidade como determinado fato ocorreu? A questão é complexa porque envolve vários processos até que a informação chegue ao leitor. A apuração dos fatos, entrevistas e seleção das informações são etapas cumpridas pelo jornalista para a redação de um texto. E, para que este texto se aproxime ao máximo da realidade, alguns princípios devem ser respeitados.
De acordo com um estudo da empresa de relações públicas Edelman, publicado no início desse ano, a mídia é a instituição mais confiável pelos formadores de opinião brasileiros. 64% dos entrevistados dizem acreditar nos meios de comunicação, enquanto apenas 22% confiam no governo. Os veículos impressos lideram este ranking de confiança: 87% procuram o jornal em papel como primeira fonte de informação, depois a TV (82%), internet (52%) e rádio (32%).
A credibilidade do impresso é apontada como resultado da publicação de matérias consistentes e esclarecedoras, sem tendenciosidade nas análises do noticiário. Para esta parcela da população, o jornalismo estaria cumprindo sua função, que é a de informar com objetividade e imparcialidade os acontecimentos que influenciam o país. “O Jornalismo pretende reapresentar o mundo de forma imediata, massiva, planetária, em período essencialmente curto, e em diversos suportes tecnológicos. Para isso, busca consolidar linguagem clara e verossímil, acesso imediato aos fatos, versões e interpretações”, define o professor de comunicação da Universidade Federal de Santa Catarina, Francisco José Castilhos Karam.
Com relativamente mais espaço que meios eletrônicos, como o rádio e a TV, o impresso pode reunir maior número de versões e interpretações, gerando a pluralidade da comunicação. O leitor também tem maior poder de seleção já que pode escolher o que quer ler e qual o tempo que quer dedicar a isso, ao contrário dos outros veículos, onde não é possível pausar o noticiário ou assistir e ouvir apenas o que se deseja.
Classificado como “quarto poder”, o jornalismo pode também pautar as decisões dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, pois tem forte influência sobre o público consumidor de informações. Segundo a pesquisadora Marcilene Forechi, da Universidade Federal do Espírito Santo, em seu estudo “A informação como troca na construção da realidade cotidiana”, o jornalismo fornece elementos para que o indivíduo compreenda e organize o ambiente onde está inserido. “Isso significa que selecionar temas considerados importantes, transformá-los em notícias e levá-las ao público é uma delegação dada pela sociedade ao jornalismo”, afirma Forechi.
Para cumprir tamanha responsabilidade, a Federação Nacional dos Jornalistas esclarece, no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, que este profissional deve comprometer-se com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação (Art. 4º). O código também cita como dever do jornalista lutar pela liberdade de pensamento e de expressão e divulgar informações de interesse público. Porém, a armadilha para quem trabalha neste meio é a preferência pela divulgação apenas de informações de interesse do público, o que é diferente. Nem sempre o que distrai, comove ou causa risos pode ser considerado como informação útil à sociedade. Apesar de render boas vendas em bancas.
____________________
Impresso ontem e hoje
O jornal impresso pode não ser hoje o veículo mais procurado para se informar quando se considera toda a população. Entre as camadas menos favorecidas, sua popularidade é ainda menor. Mas este meio já estimulou debates populares fervorosos no passado. Na Inglaterra dos séculos XVII e XVIII, pessoas de diferentes níveis sociais se reuniam em locais públicos para ler e debater o que era publicado pelos periódicos da época. A leitura de jornais em voz alta nas áreas rurais e urbanas era comum e em muitas ocasiões se tornava uma experiência participativa. “Trabalhadores habitualmente começavam seu dia indo a salas dos cafés a fim de ler as últimas notícias, discutir política e tópicos de interesse, como os referentes à nobreza”, afirma o pesquisador da Universidade Federal de Sergipe, Carlos Eduardo Franciscato, em seu artigo “O leitor de jornais em uma perspectiva histórica”.
Com o advento do rádio e da televisão, o impresso perdeu espaço como veículo informador. Mas sofreu seu maior revés com o surgimento e popularização da internet. Alguns veículos migraram para a rede de computadores e alcançaram êxito, mantendo ainda suas edições impressas. Porém, se o jornal em papel sobreviverá ou não à avalanche de informação proporcionada por tantos meios de comunicação é questão controversa. “O jornalismo impresso, se sobreviver, tenderá mais à interpretação mais densa de fatos e contextos sociais. Dificilmente concorrerá com a Internet, TV e rádio em termos de rapidez e volume de fatos”, relata Karam.