Duda fez a definitiva escolha de se tornar um homem honesto, fiel a sua esposa e sujeito de sua história. Porém, seu primeiro passo seria uma última desonestidade, ou seja, uma transação que envolveria uma grande quantia em dinheiro. Confiante no recebimento desta, Duda resolve romper com sua amante, Karina, que trabalha em sua confecção.
Karina, porém, ignora completamente seus argumentos e enquanto tenta agarrar Duda, por acidente, aperta o botão “send” do celular do amante, acionando o número de sua mulher, Mari. Esta, então, passa a escutar tudo o que o marido e a amante conversam. Num único dia, Mari e a amiga Déia acompanham Duda pelo viva-voz do carro enquanto acontecem traições, desvio de dinheiro, roubos, seqüestros e até uma tentativa de assassinato.
“Viva Voz” de Paulo Morelli é uma trama cheia de reviravoltas que leva a um final surpreendentemente cômico. Um filme que não somente nos diverte, mas nos leva a pensar nas conseqüências de nossas escolhas e que nosso universo depende muito da transparência que possuímos diante das pessoas que nos circundam.
Apesar de toda a carga genética que recebemos, nós, seres humanos, não vivemos em um determinismo natural. Definitivamente, a natureza não se constitui em uma simples prisão ou força dominadora que nos limita e determina nossas ações e posturas. Pessoas não são simplesmente peças de um sistema, pois possuem algo que as difere dos outros seres vivos em nosso planeta: a razão. A atividade de pensar e refletir constitui-se na capacidade que caracteriza a nossa liberdade de escolha.
Nós não somos simplesmente controlados por leis naturais e nossos sentimentos; nossas ações ou formas de vida não estão apenas programados por fatores genéticos. Justamente na relação dialética entre razão e natureza podemos concretizar o que gostaríamos de ser e como teríamos o prazer de viver. Graças à razão humana podemos aprender novas maneiras de ver o mundo e compreender o universo, podemos, também, desaprender valores e tradições. “Cada homem é arquiteto de seu destino” (Salústio).
Através da capacidade de refletir e questionar descobrimos que não precisamos ser vítimas do passado, mas somos capazes de construir nossa vida de uma forma diferente de outras gerações ou, simplesmente, podemos modificar nossos costumes e comportamentos quando não encontramos neles um caminho de realização pessoal e social.
A liberdade de escolha, porém, exige o trabalho, muitas vezes desagradável, de autocrítica e a coragem de assumir a responsabilidade de nossas posturas. Exercer a liberdade de escolha significa a despedida de um mundo infantil, no qual nos sentimos, de certa forma, protegidos por uma falsa segurança. Sem dúvida alguma, torna-se muito mais cômodo e nos dá uma sensação de tranqüilidade se acreditamos que “a vida é assim”. Adotam-se esta “verdade”, o nosso único esforço é nos acostumarmos com as regras e estruturas que encontramos em nossa atual mentalidade social.
Desta forma, nos sentimos seguros na comodidade de continuar a vida sem mudanças. O problema é que a vida não é assim, mas ela se encontra assim no momento. Se dermos uma olhadinha na história da humanidade constataremos que a mudança e a diversidade sempre fizeram parte da vida. Na verdade, a riqueza da vida está na diversidade e cada um de nós contribui realmente, na passagem por aqui, buscando sua autenticidade e respeitando a das outras pessoas. Outra forma cômoda de não tomarmos as rédeas de nossa existência é encontrarmos um ótimo “bode expiatório”. A vida, a natureza, Deus ou diabo sempre servem a este objetivo.
Assim, preferimos nos consolar com clichês que escondem, na verdade, a nossa covardia: “eu nasci assim”, “a minha natureza é essa”, “meu temperamento”, “meu destino”, “minha cruz”, “Deus quis assim”... Frases de efeito muitas vezes nos transformam em objetos das circunstâncias. “Os homens amontoam os erros de sua vida e criam um monstro que chamam de destino” (Thomas Hobbes).
Ser ou não ser vítima de sentimentos, emoções, da vida ou da natureza consiste, na verdade, em uma escolha humana. Dentre todas as “razões” para nossos problemas, o demônio bate o recorde. O que seria do ser humano se ele não tivesse um “anjo do mal” para jogar suas culpas, erros e fraquezas. É claro que Deus também não escapa das acusações de suas “crianças”. Seríamos mais justos com Ele se o compreendêssemos como Aquele que possui como único desejo: a nossa realização pessoal e felicidade coletiva. Afinal, o que mais desejaria um verdadeiro pai? No fundo, afirma Michel de Montaigne, não existe uma definição completa do que somos e como nos realizamos como pessoa. Assim, não há receitas prontas para sermos humanos. Cada um é convidado a encontrar seu próprio caminho, no que consiste seu chamado para a vida.