Polícia

Megaoperação da Polícia Civil identifica pichadores em Bauru

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 5 min

Um intenso trabalho de investigação, que envolveu todos os distritos da Delegacia Seccional da Polícia Civil de Bauru, com direito a recolhimento de impressão digital, amostras de sangue e apreensão de computadores, resultou na identificação de um grupo de dez pichadores – adolescentes e adultos de bairros da periferia e também de classes média e alta da cidade - responsável por vandalizar diversos prédios da área central e sul de Bauru. A Polícia Civil instaurou inquérito para apurar, além da pichação, formação de quadrilha.

De acordo com a polícia, todos estavam envolvidos na depredação dos 12 andares do prédio da rua Luso Brasileira, no dia 22 de novembro, após agredir violentamente o cachorro que fazia a segurança do lugar. Os nomes dos adolescentes não foram divulgados em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O delegado seccional José Henrique Gomes dos Santos coordenou a operação. Ele também adiantou que a Polícia Civil vai investir em conscientização e prevenção no combate às pichações.

Ontem, o trabalho dos policiais foi divulgado à imprensa. “Foi desencadeada uma megaoperação, com oito mandados de busca e apreensão”, ressalta o delegado seccional assistente Abel Cortez. Ao todo, dez lugares foram verificados. O material recolhido era surpreendente. Em uma única residência, foram encontradas 35 latas de tinta spray. Também foram recolhidos durante a operação cadernos com modelos de caligrafias utilizadas em pichações, tintas látex e rolinhos para pintura, um aparelho celular – com uma agenda repleta de contatos e apelidos dos pichadores e uma CPU, que armazenava fotografias de rabiscos em imóveis de Bauru.

O resultado da megaoperação foi apresentado durante a tarde na Delegacia da Infância e Juventude (Diju). De acordo com a delegada Rejani Tiritan, titular da unidade especializada, ontem o trabalho começou por volta das 9h. Todos os jovens que foram localizados prestaram depoimentos na unidade. O último começou depois das 20h. Um dos adolescentes permaneceu apreendido no Núcleo de Apoio Integrado (NAI) por ter violado a medida sócio-educativa de liberdade assistida que cumpre por roubo.

Todos foram acompanhados por seus responsáveis. “Muitos têm ciência que os filhos estão envolvidos com pichação. E também sabem que terão que arcar com as conseqüências da reparação desses danos”, destaca a delegada. Cortez é enfático. “Os pais devem estar atentos aos seus filhos. Pichação não é brincadeira e em Bauru, a Polícia Civil irá adotar medidas extremas. No final, os pais serão obrigados a reparar os danos causados”, diz.

Depois de pichar o prédio da rua Luso Brasileira, eles ainda depredaram outro imóvel na região da avenida Getúlio Vargas. Tiritan destaca que dos dez envolvidos na depredação do prédio do Jardim Estoril, quatro já tinham sido pegos em flagrante por pichação. “E a maioria deles não freqüenta escola”, afirma.

A polícia também apurou que eles utilizam lans houses para acessar Internet e que para pichar parapeitos de prédios correm um grande risco: ficam pendurados em cordas ou pior: um fica de ponta-cabeça e outro o segura pelas pernas.

A Diju instaurou inquérito para apurar formação de quadrilha – crime com pena de um a três anos de reclusão. Além das pichações – violação prevista na Lei de Crimes Ambientais, com pena de três meses a um ano de detenção, crueldade contra animais, que de acordo com a Lei das Contravenções Penais tem pena de dez dias a um mês de reclusão e multa, além de furto, já que foram subtraídas algumas torneiras do imóvel. Os rapazes também responderão por corrupção de menores.

____________________

Denúncia

Desde o começo de outubro, após a pichação do prédio da Telefônica, o Jornal da Cidade vem denunciando o ataque desses criminosos à cidade. Uma série de reportagens foi publicada mostrando os danos que a pichação pode trazer à comunidade, além de cobrar as autoridades envolvidas providências quanto ao problema.

Além da Telefônica e do imóvel da rua Luso Brasileira, outros prédios foram alvo da falta de respeito desses criminosos. Uma concessionária de motocicletas na avenida Nações Unidas foi pichada duas vezes durante a mesma madrugada. O prédio do hospital do Centrinho, em junho e no ano passado, o prédio do Fórum, no Jardim Bela Vista, e o Palácio das Cerejeiras também foram pichados.

____________________

Prevenção

O delegado seccional assistente Abel Cortez destaca que os próprios pais devem atuar na prevenção. “Eles devem ficar atentos ao comportamento dos filhos, prestar atenção se eles não voltam para casa com manchas de tinta, por exemplo”, observa.

“Os pais devem entender que podem ser responsabilizados civelmente pelo delito do filho”, explica. Ou seja, cabe aos responsáveis pelo jovem pagar pelo dano que ele provocou.

A delegada Rejani Tiritan destacou que a prevenção é necessária para que esses adolescentes não partam para outros crimes. “A pichação é a porta para outros crimes. Eles começam assim e depois vão para outros delitos. Se acaba dinheiro para o spray, ele pode furtar para conseguir isso”, afirma.

____________________

Até material genético foi recolhido

A delegada Rejani Tiritan, titular da Delegacia da infância e Juventude (Diju), conta que a investigação da pichação do prédio da rua Luso Brasileira começou a partir do local do vandalismo. “Nenhum crime é perfeito. Sempre se deixa alguma coisa para trás”, afirma. De acordo com a delegada, no local foi encontrado muito material para a apuração. “Foram recolhidas impressões digitais, fio de cabelo e amostras de sangue, já que um deles se feriu”, enumera.

O trabalho seguiu com o levantamento de informações, como fotografias de pichações pela cidade, cruzamentos de rabiscos parecidos em outros lugares. “Utilizamos todos os recursos disponíveis, como investigação de campo, inteligência policial e a tecnologia que temos”, destaca. Dessa forma, ela averiguou que o grupo é responsável por pichar outros imóveis das zonas central e sul de Bauru, entre eles, um prédio na Araújo Leite, um clube nos Altos da Cidade e um imóvel do Jardim Contorno.

A delegada explica que nem todos os jovens que foram ouvidos ontem fazem parte do mesmo grupo, ou grifes, como são chamados. Mas por terem se reunido e escolhido um lugar para a pichação, acabaram incorrendo no crime de formação de bando ou quadrilha, delito com pena de um a três anos de prisão.

Durante as investigações, que seguiram por mais de um mês, a Polícia Civil identificou outros pichadores, que deverão ser ouvidos pela Diju e pelos distritos. Os jovens que no início de outubro depredaram o prédio da Telefônica, no Centro, filmaram a ação criminosa e disponibilizaram o vídeo na Internet já foram identificados pela unidade.

Comentários

Comentários