Para quem gosta da Fórmula 1 como eu, o ano que vem promete. As fábricas já estão com alguns modelos novos em testes de inverno (europeu, é claro) na Espanha, visando desenvolvimento e aperfeiçoamento para a nova temporada. Muita coisa vai mudar na área técnica, deixando o carro mais arisco e mais competitivo, propiciando mais ultrapassagens e disputa.
A alteração mais visível nos carros será com certeza a volta gloriosa dos pneus slick, com sua aderência fantástica apesar da cara de pneu careca. Aliás, esta é uma confusão que muita gente faz: por que um pneu slick de competição gruda mais no chão seco do que um ranhurado, enquanto que em um carro de rua acontece exatamente o contrário? Simples, o composto da borracha é bem diferente. Em um carro de rua, o pneu tem que durar muitos quilômetros, daí usar-se um composto de borracha mais dura. As ranhuras servem para escoar água da chuva e dar tração em terrenos pouco firmes ou escorregadios. Quando as ranhuras se desgastam, o pneu perde aderência, pois a borracha dura não se amolda com o terreno e permite um escorregamento maior devido à menor área de contato com o solo. Já nos pneus slick o oposto acontece. Como o composto de borracha é muito mais mole, sua aderência no solo é enorme, mas oferece dois inconvenientes importantes: sua durabilidade é irrisória (cerca de 100 a 200 km apenas em condições de corrida) e só funciona em pista absolutamente seca. Qualquer chuvinha ou mesmo sujeira na pista é o suficiente para começar o festival de derrapagens.
Os pneus slick são muito mais rápidos do que os atuais ranhurados, pois tem maior área de contato com o solo, e os carros já estão mostrando uma melhora sensível nos tempos cronometrados. Mas o efeito dos novos pneus nas suspensões ainda precisa ser mais bem avaliado e testado, pois tudo é muito sensível no carro e qualquer fator novo altera a geometria e conseqüentemente o desempenho.
Outra modificação claramente visível nos novos carros é o formato das asas dianteira e traseira. A dianteira deverá ficar quase colada ao chão, impedindo a passagem do fluxo de ar sob o carro. Terá aumentado seu comprimento de 1400 mm para 1800 mm, porém a largura será reduzida pela metade, dando a impressão de um pára-choque e não de um aerofólio. Já a asa traseira será mais estreita e mais alta, parecendo uma prateleira pendurada na traseira. Sua função será de dar mais equilíbrio ao carro, já que terá mais peso na traseira com o KERS (explico mais adiante). Penso que os novos carros vão ficar feios de doer, mas Fórmula 1 é sempre Fórmula 1...
A McLaren já está testando um dispositivo que será usado por quase todas as equipes, o KERS (Kinectic Energy Recovery System). Como o próprio nome diz, é um equipamento de recuperação de energia cinética da frenagem. Como o carro vem na reta em alta velocidade, o esforço de frear antes da curva é armazenado em um sistema de massas rotativas que funcionam como volantes de armazenagem de energia, que pode ser reaproveitada por cerca de 7 segundos na saída de curva, dando um ganho extra de quase 70 HP ao motor. O KERS acrescenta cerca de 60 kg de peso ao veículo, o que precisa ser distribuído equilibradamente por todo o conjunto.
Quanto aos motores, agora terão que agüentar 3 corridas ao invés das 2 como é atualmente. Antes, os motores tinham uma vida útil de apenas 1 corrida, portanto podiam ser usados até estourar em apenas 300 km de percurso. Passando para 2 corridas, eles tiveram que melhorar sua durabilidade sem perder a performance, o que acarretou um ganho tecnológico muito grande. Com a nova regra das 3 corridas, além de dar um novo salto tecnológico no tocante à durabilidade, terá um forte impacto na redução dos custos das equipes. Com certeza a Fórmula 1 será mais competitiva no ano que vem, mas o que preocupa é o lado político-econômico das grandes montadoras. Com a forte recessão nos Estados Unidos, Europa e Ásia, o impacto negativo nas montadoras já se fez notar. A Honda saiu oficialmente da Fórmula 1 e está vendendo suas instalações para quem quiser comprar. Precisa acertar suas contas internas, com a queda nas vendas. E as outras montadoras Toyota, Renault, etc.? Pena...
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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda.
Seu site é www.marcoscamerini.com.br.
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