Quem poderia ser verdadeiramente chamado de revolucionário hoje em Bauru? Revi um essa semana. Um corajoso como poucos, disposto a continuar expondo seu trabalho, com as armas que possui às mãos. Falo de Paulo Neves, um historiador como poucos, um diretor de teatro com a cara e a coragem e um batalhador por retratar nossa história e esse país, num controverso momento, em que valores estão em mutação. E a grande revolução, mais do que virtude, é manter o discurso, apesar de toda força contrária.
O fazer a revolução não é somente a pregação nesse sentido e sim sua execução. Paulo prega e executa. Nessa segunda quinzena de dezembro, está no Teatro Municipal de Bauru com a VIII Mostra de Teatro do curso que leva seu nome. É algo extraordinário, não só pela quantidade de peças encenadas (16 ao todo), mas pela reunião nada homogênea de atores, de todas as faixas etárias e níveis sociais, além de serem todos amadores e estarem diante de uma temática que é a própria cara do criador, a política. Fui assistir “Fragmentos 3x4” e “40 Anos Depois... EstamosVivos!” (esse um revival de 1968, de cair o queixo).
Tem quem não goste do Paulo, o ache carrancudo, estressado. Achar é uma coisa. Eu mesmo acho um monte de coisas e nem por isso deixei de estar lá e nas duas peças que assisti (pretendo ir em mais umas quatro), constato que o seu trabalho é daqueles imprescindíveis. Isso porque ele faz, movimenta as pessoas, faz pensar, agita, te deixa inquieto, cheio de questionamentos. Sua peças pulsam Brasil. E ele chega nesse momento no seu quase limite, em ponto de bala e ebulição, prontinho para explodir. Pudera! Movimentar aquele aparato todo é para alguém com parafuso mais do que solto. Só ele mesmo para saber apertá-lo no momento certo.
Para todos aqueles preocupados com o destino de mais uma “Flora” televisiva, a recomendação é ir ao teatro até o dia 19. Esqueça a TV e venha espiar o Brasil ali da esquina, a preços mais do que módicos (R$ 5 ou R$ 10 reais o ingresso). Tem peças para todos os gostos e preferências. Se perder, depois não reclame que nada acontece culturalmente na cidade, pois se quando existe algo escolhemos a maneira burra de viver. Quer ver alguém empunhando uma arma de fogo e promovendo uma ação revolucionária? O Paulo é um dos poucos que insiste em nos mostrar a existência de uma saída.
O autor, Henrique Perazzi de Aquino, é diretor da Secretaria de Cultura de Bauru