Cultura

O dia em que Madonna tomou um tombo

Diego Molina enviado especial ao Rio
| Tempo de leitura: 6 min

Ela veio, ela tomou um tombo, ela desafinou, ela reinou. Madonna fez o primeiro show da turnê “Sticky & Sweet”, domingo, no Maracanã, no Rio de Janeiro. O templo do futebol lotado, com cerca de 70 mil fãs, assistiu a um espetáculo tecnológico, teatral e cronometrado, que não deixa muito espaço para simpatia e bate-papo.

Ainda assim, a popstar brincou um pouco e cantou para a chuva ir embora. Como não foi atendida pelas nuvens, mandou um palavrão e disse que o show ia continuar de qualquer forma.

A chuva que se anunciou, no final da tarde, deu uma trégua para a abertura do DJ Paul Oakenfold, que tocou para a torcida, só com hits da música eletrônica e pop recente. Levantou a galera, que respondeu ao britânico com animação na pista e olas nas arquibancadas.

Momentos antes das 20h30, a chuva chegou com força. Enquanto os prevenidos vestiam as capas de plástico, as luzes do Maracanã se apagaram e o cubo formado por telões gigantes de altíssima definição se acendeu, no centro do palco. Como em toda a turnê, o cubo se abriu e Madonna apareceu em seu trono, fez uma expressão bem-humorada de quase desprezo aos gritos do público e iniciou as duas horas cravadas com “Candy Shop”, faixa que também abre seu mais recente CD, “Hard Candy”.

Acompanhada por uma dezena de dançarinos, ela logo enfrentou a chuva e seguiu até a ponta da passarela, de quase 20 metros, no meio do público. Na seqüência, cantou “Beat Goes On”, com participação de Pharrel Williams e Kanye West nos telões, enquanto a popstar e seus dançarinos voltavam à passarela, dessa vez no Rolls Royce branco, conversível e encharcado. Tudo demonstrava que a turnê “Sticky & Sweet” é à prova d’água e seguiria até o final sem problemas.

Com “Human Nature”, do CD “Bedtime Stories” (1994), enquanto tocava violão novamente na ponta da passarela - sob um guarda-chuva segurado por um roadie -, a cantora recebeu mais uma “participação virtual”, com o anunciado vídeo de Britney Spears debatendo-se em um elevador. Encerrando o primeiro bloco do show, veio “Vogue” (1990) em novo arranjo com a batida do hit “4 Minutes”.

Nos momentos em que o palco se apagava - o que praticamente não acontece, já que o espetáculo é um contínuo de telões deslizando, praticáveis subindo e descendo - , discretos auxiliares tentavam tirar a água da passarela com rodos.

Ao som de “Die Another Day” (2002), dois dançarinos vestidos de boxeadores brigaram até a ponta da passarela, novamente, anunciando o bloco que homenageia a carreira de Madonna na década de 1980. Pulando corda, com shorts curtinho, ela cantou “Into the Groove” (1984) enquanto os telões mostravam animações do artista pop Keith Hering. O público enlouqueceu e mostrou que a chuva podia continuar, desde que o show também seguisse adiante.

Tombo e bloco latino

Depois de “Heartbeat”, do mais recente CD, “Borderline”, do primeiro disco da cantora, de 1983, ganhou um arranjo roqueiro e sua anunciada desafinação, enquanto tocava guitarra sob um guarda-chuva. Na passarela, surgiram quatro dançarinas com figurinos usados por Madonna em diferentes momentos de sua carreira, enquanto os telões mostravam fotos das diversas fases de sua história - e, por que não, da história do pop.

“Brigando” com seus clones, a diva escorregou na passarela, caiu de joelhos, rolou, ficou de bunda no chão e continuou cantando, como se tudo fizesse parte do show. Encerrou a música ao dar um beijo na boca de uma das dançarinas. A chuva derrubou Madonna e isso só o Rio vai ter.

O segundo bloco terminou com o megahit “Music”, em um remix já conhecido com “Put Your Hands Up For Detroit”. No intervalo, outro remix, dessa vez de “Rain” com “Here Comes the Rain Again”, do duo Eurythmics - muito apropriado para a noite, já que a chuva não havia dado trégua.

O terceiro bloco tem tema latino e cigano. A abertura é a mais impressionante de todo o show: a estrutura de telões circulares, que fica sobre o palco, desceu até a passarela e Madonna cantou “Devil Wouldn’t Recognize You”, do último disco, em cima de um piano, dentro dessa parafernália que continua mostrando imagens de água e chuva.

“Spanish Lesson” e “Miles Away”, também do mais recente CD, esfriaram o público. Somente quando os dançarinos exibiram as camisas coloridas e um grupo folclórico romeno entrou no palco, os fãs voltaram a se animar para a versão de “La Isla Bonita” (1986) com sotaque do leste europeu. Depois de ter tocado a mesma música com Madonna no “Live Earth”, a banda Gogol Bordello, que fez um dos melhores shows do último TIM Festival, era esperada no palco, já que o vocalista, Eugene Hütz, mora no Rio. Expectativa frustrada.

Todo mundo Obama

Pinçada da trilha de “Evita”, a balada “You Must Love Me” (1996) ganha tom épico, mesmo em versão acústica, com os telões mostrando imagens, primeiro de ditadores e outros monstros da história da humanidade, para depois exibir Nelson Mandela, John Kennedy, Dalai Lama, Gandhi, John Lennon e, finalmente, o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama. Boa parte do público aplaudiu, mas houve quem ficasse indiferente, talvez bem-informados sobre a visão superprotecionista do democrata em relação ao crescimento da América Latina.

O último bloco é arrasador e já começa com “4 Minutes”. Com “participação” de Timbaland e de Justin Timberlake - dividido em quatro telões menores, que se movimentam e giram pelo palco -, o hit levantou o Maracanã novamente e preparou o público para “Like a Prayer” (1989), que os fãs cantaram e pularam do começo ao fim.

Improvisando, Madonna puxou uma musiquinha infantil pedindo para a chuva ir embora. Em seguida, disse a um fã colado na grade que escolhesse uma música para ela tocar e cantar. O rapaz pediu “Everybody” e ela respondeu que não cantava mais essa. Ele sugeriu “Express Yourself” (1989) e a popstar puxou o coro, sozinha no palco, cantando um verso e deixando o público responder o próximo.

Os telões se iluminaram e a popstar cantou “Ray Of Light” (1998). “Hung Up” (2005) ganhou um arranjo quase hard rock e Madonna voltou à passarela, tocando guitarra. Ao final, até levantou os dedinhos, fazendo o sinal do heavy metal. “Give It 2 Me” anunciava o final do show e a cantora pediu ao público que pulasse e se entregasse a ela, depois de duas horas de show sob chuva.

Indo e voltando pela passarela, acompanhada dos dançarinos, ela agradeceu, o público pediu mais, mas os telões já formavam o cubo no centro do palco. E ela se despediu de dentro da estrutura que estampava o conhecido “Game Over”.

Aeróbica e cronometrada, a turnê “Sticky & Sweet” é quase obsessiva-compulsiva, tamanha precisão exigida de todos os envolvidos. Um espetáculo, sim, divertido, colorido, cheio de efeitos visuais, brincadeiras entre a popstar, seus dançarinos e músicos. E Madonna, cantando, desafinando ou fazendo playback (utilizando voz guia, como queiram), tem os fãs em suas mãos. Tudo é teatral, milimetricamente ensaiado, pois o show não pode parar.

Amanhã, a cantora realiza a primeira apresentação em São Paulo, no Estádio do Morumbi - as outras serão no sábado e domingo.

Comentários

Comentários