Articulistas

A desconstrução do Natal


| Tempo de leitura: 3 min

Uma das marcas da pós-modernidade é o espírito de desconstrução. Seja na arte, na literatura, na moral ou na cultura, nada mais é absoluto, tudo é relativo. Creio que a urgência do presente acaba nos afastando muito rápido de nossas reminiscências. Através de um processo contínuo de eterna desconstrução da essência e origem das coisas, acabamos perdendo de vista o verdadeiro sentido delas substituindo por outros sentidos que logo desaparecerão. Este é o perfil desta geração que não trata as coisas pelo seu sentido original, mas pela sua utilidade para o momento.

Na religião, mais propriamente no cristianismo, não tem sido diferente. O Natal desconstruiu-se com o passar dos séculos: ele perdeu o encanto da estrebaria e ganhou os contornos da cultura estética de nossa geração; deixou a simplicidade do campo e caiu na malha da urbanização. Deixou para trás o cheiro da poeira do Oriente para ganhar o odor da poluição do ocidente. No decorrer da história cristã a beleza simples do natal foi substituída pela beleza artificial das festas, roupas, símbolos e enfeites natalinos. A beleza do natural foi trocada pelo artificial... Dos vitrais das grandes catedrais católicas e da beleza dos grandes templos protestantes, percebemos que a singeleza do menino Jesus foi substituída pela sutileza da religião ins-titucionalizada com seus ritos e adornos.

No decorrer da história cristã o brilho da estrela de Belém ficou ofuscado pelas lâmpadas que o homem criou. O Natal perdeu a luz de Deus e ganhou a luz dos homens. Ele perdeu o som do menino na manjedoura para ganhar o barulho de uma geração que não sabe ouvir o choro de uma criança.

O Natal de hoje já não é mais o natal de ontem, ele foi desconstruído por uma geração ávida por novidades. O tradicional e o absoluto foram trocados pelo volátil e relativo. Para o homem de hoje o Natal não precisa ser o que sempre foi, basta cada um dar a ele o significado que desejar.

A cada ano nos distanciamos mais de Belém e do menino Jesus e acabamos entrando no natal do feriado, presentes e reunião de família e dos enfeites e adornos desenhados pela nossa geração. Saímos do canto dos anjos diante do menino para os ritos e símbolos natalinos criados por um cristianismo histórico que a cada dia se distancia mais e mais do Cristo que adora.

Não dá para desconstruir fatos... Fatos são fatos! Jesus nasceu isto é um fato inegável. Por mais que se tente desconstruir, o verdadeiro natal sempre nos reportará ao nascimento de Jesus; este foi um fenômeno histórico de grandeza sobrenatural. O milagre aconteceu e Jesus nasceu! Uma virgem deu à luz cumprindo as profecias bíblicas. Os anjos deram “glória a Deus nas alturas”, saudando a chegada do menino Jesus. Magos do oriente ofertaram o que tinham de melhor. Naquele momento estava surgindo o grande “Emanuel”, a manifestação visível do Deus invisível. Desde aquela data o mundo não foi mais o mesmo. A pequena cidade de Belém da Judéia se tornou o centro da história da humanidade. Anjos desceram para dar boas vindas ao menino que nascia.

Apesar de toda desconstrução natalina, o natal sempre será uma data inesquecível, pois seu encanto e mensagem transcendem a beleza e o discurso da sociedade contemporânea.

Desconstruir o Natal é roubar dele a sua essência e verdade, tirando do povo cristão a sua verdadeira identidade.

O autor, Samuel Biassi do Nascimento, é teólogo e pastor titular da Primeira Igreja Batista em Bauru

Comentários

Comentários