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Brigar pelo emprego


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Aos leitores quero transmitir de início os meus votos de boas festas neste final de ano e de um muito próspero 2009. Ao me ausentar por duas semanas desejo partilhar com vocês a certeza que nossa economia não vai entrar em recessão apenas porque as economias mais desenvolvidas estão começando a sofrê-la, a começar pela maior delas, os EUA. Lá a economia real já está sentindo profundamente os efeitos da perda de confiança que impede o funcionamento normal do sistema financeiro e bancário. A indústria e o comércio desempregam e o consumidor se retraiu fortemente, próximo do pânico. Isso não aconteceu do dia para a noite. Na realidade é o resultado de um processo de corrosão moral de mais de uma década, que “passou batido” pelos controles da maioria dos bancos centrais.

Os ventos da crise chegaram ao Brasil, afetaram duramente o mercado de crédito, inibindo a produção industrial e o comércio, mas tanto governo como consumidores estão reagindo de forma bastante razoável: o governo fornecendo os recursos para garantir o crédito à produção e o consumidor recorrendo menos ao crediário mas não deixando de comprar. As empresas por sua vez evitam recorrer às demissões como solução primária diante da retração das vendas, procurando na medida do possível fazer acordos para manter os postos de trabalho.

Claramente estamos diante de uma agressão que só vai ser superada com a retomada da confiança e isso vai depender muito mais da capacidade de convencimento das lideranças políticas do que de quaisquer modelos ou programas econômicos. Não dá para esperar soluções técnicas quando a ameaça do desemprego se materializa. Barak Obama, no momento mesmo da apresentação pública da equipe econômica que vai assessorá-lo a partir de 20 de janeiro, fez um apelo direto ao consumidor americano: “é a melhor gente que consegui encontrar no mercado para enfrentar a crise - disse ele - mas não vamos derrotar a recessão se vocês tiverem medo e pararem de comprar.”

Do outro lado do mundo, convencido de que “em 2009 o mercado de trabalho será impiedoso”, o líder chinês Hu Jintao excursiona pelas províncias cobrando de seus “empresários”: eu espero - disse ele - “que todas as organizações empregadoras façam o melhor para ajudar aqueles que estão procurando emprego e contribuam para a harmonia social e a estabilidade”.

Nos Estados Unidos, na China ou na Eurolândia, os líderes políticos estão se esfalfando na tentativa de inverter o clima recessivo, antes que cresçam as demissões de trabalhadores. Nas próximas semanas o prezado leitor verá recrudescer no Brasil essa guerra que se trava essencialmente no campo minado da comunicação.

Se o consumidor for levado a pensar que seu emprego está a perigo lá adiante e por isso deixar de comprar hoje, ele próprio vai criando as condições desse emprego ser suprimido no futuro. Foi para derrubar esse sentimento que o presidente Lula saiu em campanha esta semana, pedindo aos brasileiros para continuarem comprando. Ele garantiu que seu governo não deixará que faltem recursos para sustentar o crédito para consumo e para a produção das fábricas e das fazendas:

“Na medida em que se transmite um certo pânico ao consumidor, mesmo que a pessoa tenha um dinheirinho ela não vai comprar , porque está com medo de perder o emprego. O que ela não percebe é que se não consumir, aí vai perder o emprego. Mas podem acreditar: não vai faltar dinheiro para crédito, nós vamos irrigar o sistema e vai funcionar...”

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP - ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

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