Quando se trata de defender o próprio interesse, senador trabalha até de madrugada. Mediante sessões extraordinárias seguidas, para evitar prazos regimentais, no lusco-fusco do alvorecer os parlamentares chancelaram a farra dos vereadores, mediante um “acordão” das lideranças. Quase por unanimidade a Constituição foi mais uma vez violentada, com o aumento do número de vereadores de 51.748 para 59.791. São mais 7.343 para mamar nas tetas do dinheiro público municipal. Os senadores paulistas Aloízio Mercadante e Eduardo Suplicy votaram a favor. Sapato neles. O presente de Natal seria consumado já em 1º de janeiro, quando os suplentes tomariam posse. Aqui em Bauru, dos 16 atuais vereadores passaríamos para 23. O presidente da Câmara Federal, Arlindo Chinaglia (PT-SP), que deveria sacramentar o projeto originário da sua instância, mal raiou o dia deu seqüência à opera-bufa e barrou a criação dos cargos. Nenhuma dissensão quanto ao mérito. Apenas por birra. O Senado destacou para futura discussão o dispositivo que reduzia os gastos com vereadores, de R$ 6 bilhões para R$ 4,8 bilhões. Entendeu Chinaglia que o projeto deveria voltar à origem, por causa da modificação no conteúdo. Instaurou-se uma guerra jurídica entre a Câmara Alta e a Câmara Baixa, que deverá ser decidida pelo Supremo Tribunal Federal. Nem se preocupe. Tão logo se reinstale a sessão legislativa terão feito as pazes. As prebendas natalinas vão chegar, com direito aos atrasados, aos 7.343 amigos políticos, por conta dos cofres da viúva. A esperança é que o STJ leve em conta os interesses nacionais. Difícil. Na mesma madrugada os senadores também criaram mais 57 municípios que vão precisar de subsídios do fundo federal para poder manter seus novos vereadores, prefeitos, secretários e o resto da cumpinchada.
O projeto, com muita certeza, em nada vai colaborar para tirar Bauru da encalacrada financeira criada por prefeitos e vereadores de mandatos anteriores. Com todo respeito aos esperançosos suplentes, mudar a regra do jogo depois que ele terminou não é atitude que se defenda. Será difícil acomodar mais sete vereadores e mais sete assessores, mais funcionários para atendê-los, telefones, cafezinho, viaturas.
O prefeito ainda vai ter que fazer mais concessões, sempre às custas do erário, para manter maioria no Plenário. O entendimento é válido para qualquer outra cidade. Neste país ninguém sente falta, nem de senadores, nem de deputados, federais ou estaduais. Existe uma crise ética que apodrece as instituições. Em Olímpia, aqui mesmo no estado de São Paulo, o presidente da Câmara gastou R$ 120 mil para instalar um painel eletrônico de votação. É muito mais fácil, e econômico, contar os braços levantados. O próprio governo dá o exemplo de gastança com a criação de cargos para distribuir aos apaniguados, de maneira perdulária e irresponsável. Tudo em meio a uma crise mundial que ameaça o emprego de milhões de brasileiros e a economia de pequenas, médias e grandes empresas. Não basta o ato praticado contra o decoro. Percebe-se claramente a ausência de responsabilidade dos senadores brasileiros. Na Roma antiga, o Senado era a assembléia de patrícios, dos cidadãos que exerciam a função de “sanador”. Ou seja, de barrar tudo que fosse contra os interesses da república. Aqui, ocorre o contrário. A câmara alta se rebaixa à mesquinhez das pressões de suas bases eleitorais provocadas por “companheiros” sem votos suficientes.
Perdoem-me, desta vez, pelo excesso de adjetivos e pelo fato de não ter me preocupado em disfarçar minha indignação. A classe política continua gostando de fazer piquenique à beira do abismo. Nem aí com a coisa pública. Perderam o medo da imprensa e dos eleitores desmemoriados.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC