Corriam os anos 80, e Ricardo Bizarra Crivelari, na época com apenas 8 anos, era um viciado em rádio e música. Naquele tempo, ele tinha o costume de telefonar várias vezes ao dia para as emissoras da cidade “para atazanar os locutores”, como ele próprio costuma dizer.
Ainda hoje, ele mantém em casa caixas e mais caixas repletas de fitas K-7, em que estão eternizadas algumas das muitas participações que ele fez nos programas de rádio de Bauru. Isto porque naquela época ele não passava de um mero ouvinte e mal fazia idéia de que trilharia uma carreira de sucesso no meio - primeiro como contato publicitário, depois como redator comercial e, mais recentemente, como locutor, no período das 20h às 23h.
Vidrado em música - de todas as épocas e estilos -, Ricardo ganhou o primeiro violão quando tinha 10 anos de idade. Nessa ocasião, aliás, experimentou a primeira grande sensação de perda de sua vida.
Sentado no quintal de sua antiga residência, na Bela Vista, Ricardo tentava extrair alguns sons do instrumento. Por um instante, ele se distraiu e acabou deixando o violão largado ao relento. Era tarde e o sol estava abrasador.
Quando deu falta do instrumento, correu para fora de casa e se deparou com uma cena desoladora: o violão (um Giannini que vinha passando de geração em geração na família, há várias décadas) havia sido destruído pelo sol.
Mas Ricardo não se deixou abalar. Aos 12 anos, passou a tocar nas missas da Paróquia de Santo Antônio. Mais tarde, entraria para o Conservatório Bauruense de Música e, em seguida, passaria a tocar guitarra em “bandas de baile”.
Aos 19 anos, resolveu se enveredar pelo mundo do jornalismo e acabou redescobrindo o rádio, seu antigo amor. Ricardo vem atuando como locutor na 96 FM há cerca de oito anos e, nesse tempo todo, teve a oportunidade de viver algumas situações inusitadas, como quando um ouvinte se aproveitou de uma participação ao vivo por telefone, em seu programa, para se declarar para a ex-namorada.
Anteontem, Ricardo, que atualmente se divide entre a carreira no rádio e o trabalho que vem desenvolvendo à frente da Mister Up Band, encontrou um tempo em sua agenda para receber a reportagem do Jornal da Cidade. Ele aproveitou a ocasião para recordar alguns momentos marcantes da infância vivida ao lado da avó materna, Rosa Borlina Bizarra.
Também comentou sobre a primeira turnê internacional da Mister Up Band (uma viagem ao Chile, que durou 15 dias), realizada em meados deste ano. Falou ainda a respeito de projetos de sua carreira. Acompanhe abaixo a entrevista.
Jornal da Cidade - Qual a origem do seu sobrenome, Bizarra?
Ricardo Bizarra - É um sobrenome italiano, originado na região da Toscana. Interessante é que hoje, por conta de minha carreira no rádio, a maioria das pessoas me chama de Bizarra. De vez em quando, é claro, sempre surge uma brincadeira. Dizem: ‘Ei, bizarro’. Mas eu nem ligo, aprendi a lidar bem com isso.
JC - Você nasceu em Bauru?
Ricardo - Sim, morei minha infância toda na Bela Vista. Ali era muito gostoso, pois toda a criançada do bairro costumava ir à minha rua para brincar. A gente jogava bola no asfalto o dia todo, a ponto de ficar com as pontas dos dedos esfoladas. Havia muita empatia entre os vizinhos. Todos os anos, o pessoal costumava organizar uma quermesse enorme perto de minha casa. Lembro-me de que colocavam na rua uma mesa comprida, que ficava repleta de doces e comidas típicas. Sinto uma certa tristeza quando vejo a situação atual do bairro. As casas estão cercadas por grades imensas, as pessoas já não se conhecem e a vizinhança perdeu aquele ar de família que tinha no passado.
JC - Além disso, o que mais marcou sua infância?
Ricardo - Em primeiro lugar, a convivência com a minha avó, Rosa. Foi ela quem, praticamente, me criou. Minha mãe (Célia) era professora e não tinha tempo de ficar comigo. Por essa razão, minha avó, que hoje tem 80 anos de idade, acabou sendo tudo para mim: mãe, conselheira, amiga... Ser criado por ela foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido.
JC - Em que sentido?
Ricardo - As gerações antigas guardam consigo valores que as pessoas de nossa época estão deixando de lado. Noções como família, respeito ao próximo... Essas coisas que aprendi com ela pretendo ensinar ao meus filhos e levar comigo para o resto da vida.
JC - Como surgiu seu interesse pelo rádio?
Ricardo - Acho que desde que eu era criança. Quando eu tinha 8 ou 9 anos de idade, por exemplo, eu passava o dia todo ouvindo rádio. Eu tinha o costume de telefonar para as emissoras para atazanar os locutores, pedir músicas, mandar recados. Até hoje guardo comigo várias caixas com fitas K-7, onde tenho gravadas algumas dessas participações.
JC - E o interesse pela música?
Ricardo - Foi na mesma época. Eu ligava todos os dias para as rádios, por exemplo, para pedir clássicos do rock, como ‘Sultans of Swing’ do Dire Straits. Aos 10 anos, ganhei meu primeiro violão, um Giannini, relíquia de família que havia pertencido ao meu avô e à minha mãe. Inclusive, houve um caso curioso envolvendo esse violão.
JC - O que ocorreu?
Ricardo - Eu estava no quintal de casa, ‘arranhando’ o violão, quando me distraí e acabei esquecendo-o ao relento. Quando voltei, ele estava todo encolhido por causa do sol. Foi a primeira grande sensação de perda que tive na minha vida. Aquele instrumento era uma relíquia, estava superconservado, se fosse vendido nos dias de hoje, valeria, no mínimo, uns R$ 8.000,00.
JC - Mas você seguiu na música, não é?
Ricardo - Sim. Aos 12 anos, comecei a tocar violão nas missas da Paróquia de Santo Antônio. Tive muito apoio dos freis Ladi e Aladim, que eram do convento franciscano. Eu era autodidata, costumava comprar aquelas revistas com cifras para treinar. Pouco tempo depois, durante cerca de um ano, tive aulas de violão clássico com Celso Sales. Essa experiência foi muito importante para mim, pois abriu minha percepção para as diversas nuances da música. Mais tarde, aos 15 anos, entrei para o Conservatório Bauruense de Música para aprender violão popular. Um ano depois, passei a tocar guitarra - uma Innsbruck, fabricada em Bauru - em uma banda de baile chamada THD. Passado algum tempo, essa banda se tornou uma dupla sertaneja chamada Tadeu e Henrique, e eu costumava acompanhá-la em suas apresentações.
JC - Quanto tempo você permaneceu com a dupla?
Ricardo - Até perto dos 18 anos, quando passei a fazer parte de outra banda de baile chamada Free Lance. Esse grupo chegou a ter uma certa expressão no cenário bauruense. Fazíamos muitas formaturas aqui e em São Paulo. Cheguei a tocar em 15 bailes em um único mês. Só que a Free Lance teve uma vida relativamente curta, durou dois anos, apenas.
JC - Por que chegou ao fim?
Ricardo - Um integrante foi fazer faculdade, outro precisou trabalhar fora; resolvi, também, dar um rumo a minha vida e optei pelo jornalismo. Entrei para a Universidade do Sagrado Coração (USC) quando tinha 19 anos. Aos 20, comecei a trabalhar na 96 FM, como contato publicitário. Depois, fui redator comercial, produtor e, por fim, tive a chance de me tornar locutor.
JC - Como foi?
Ricardo - Era um sábado de manhã, em 2000, e eu estava no departamento comercial da emissora desempenhando meu trabalho de costume. Faltavam alguns minutos para as 8h, e nada do locutor titular do horário aparecer. Como eu já vinha gravando alguns comerciais na rádio, o pessoal da direção acabou pedindo para que eu entrasse ao vivo, falando a hora certa. Algum tempo depois, fui convidado para cobrir folgas dos locutores aos finais de semana, até que, dois anos mais tarde, acabaram me dando um horário fixo, das 20h às 23h.
JC - Você chegou a desenvolver outros trabalhos no rádio?
Ricardo - Entre 2003 e 2008, apresentei um programa de flashbacks na Veritas FM, chamado Vitrola. Recentemente, também tive a chance, durante dois anos e meio, de ser jornalista responsável do Conexão 96, ancorado pelo Padre Beto.
JC - Nesses quase dez anos de trabalho no rádio, houve algum momento marcante?
Ricardo - Houve uma situação bastante curiosa - e meio brega, é bem verdade. Certa noite, eu estava recebendo os pedidos dos ouvintes pelo telefone, quando um rapaz entrou no ar com uma voz meio de choro, pediu uma música e disse que queria dedicá-la a uma pessoa especial. Não sei se por besteira ou sorte da minha parte, resolvi perguntar se a canção era para o amor da vida dele. Ele aproveitou a deixa e começou a chorar, dizendo que havia terminado um namoro que já durava cinco anos, mas que amava demais a garota e que a queria de volta.
JC - E depois (risos)?
Ricardo - Mais tarde, uma garota me telefonou para dizer que não agüentava mais receber ligações de amigos e conhecidos comentando a respeito de uma linda declaração de amor que ela havia recebido pelo rádio. Algumas semanas depois, o rapaz telefonou para me agradecer pela força que eu havia lhe dado (risos). Pelo que soube, os dois acabaram se casando.
JC - Como foi seu reencontro com o mundo da música?
Ricardo - Em 2006, montamos a Mister Up Band e de lá para cá temos feito shows em diversas cidades do Brasil, com covers de black music, samba-rock e pop rock. Na metade deste ano, fizemos nossa primeira turnê internacional, uma viagem ao Chile que durou cerca de 15 dias. Foi uma experiência muito interessante, em que tivemos a chance de conhecer de perto diversos aspectos da cultura popular do Chile.
JC - Como surgiu essa oportunidade?
Ricardo - Estávamos nos apresentando numa ‘Quarta Musical’ do Serviço Social do Comércio (Sesc), quando um empresário chileno que estava na platéia veio nos pedir o material de divulgação da banda. Um mês depois, ele enviou um e-mail convidando-nos para tocar no Chile. Foi muito gratificante perceber a maneira como as pessoas dos outros países valorizam a música brasileiro. Uma cena que ficou marcada em minha cabeça foi a de um estrangeiro cantando ‘Alô, alô, W/Brasil...’. Houve também um espanhol que disse ser fã do Ivan Lins. Um cantor como ele, que é idolatrado lá fora, não tem espaço na mídia, aqui no Brasil.
JC - Vocês pretendem seguir com essa carreira internacional?
Ricardo - Sim. Inclusive, já estamos preparando para 2009, com apoio do Jornal da Cidade, a gravação de um CD promocional, com foco no mercado internacional (o evento está marcado para 6 de fevereiro). Também já estamos com algumas turnês para a América do Sul sendo agendadas.
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Perfil
• Nome: Ricardo Bizarra Crivelari
• Idade: 30 anos
• Local de nascimento: Bauru
• Estado civil: Solteiro
• Filhos: Não tem
• Time do coração: Palmeiras
• Hobby: TV e música
• Livro de cabeceira: “Uma Revolução Possível”, de Padre Beto
• Estilo musical predileto: Flashbacks
• Filme preferido: “O Som do Coração” (2007)
• Para quem dá nota 10: Para a avó, Rosa
• Para quem dá nota 0: Para a intolerância mútua