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A valorama americana


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O desdobramento da crise vem confirmando, mais uma vez, que o desejo humano de ficar rico ou de ganhar dinheiro sem esforço torna as pessoas insensíveis aos riscos. Todos os cuidados, todas as cautelas que as pessoas têm quando vão fazer um negócio, conforme as leis e as regras do mercado, desaparecem quando surge uma oportunidade da ganhar mais sem esforço. Se o dinheiro que seria necessário para produzir, montar uma indústria, uma loja ou uma firma de prestação de serviços, que exigem esforço e compromissos com empregados, com fornecedores, com clientes e com o governo, pode render muito mais num fundo de investimento que oferece taxas vantajosas, por que preferir a dor de cabeça? Mas é aí que se esquecem que até o santo desconfia quando a esmola é grande. E foi assim que a Valorama, um pequeno banco local e corretora financeira, na década de 1980, oferecendo juros acima do mercado, levou o dinheiro de muitos bauruenses. Coisa semelhante, em proporções maiores, aconteceu agora nos Estados Unidos. O ex-presidente da Nasdaq, a bolsa de valores das empresas de alta tecnologia, Bernard Madoff, criou uma arapuca que deixou investidores de 50 bilhões de dólares a ver navio.

Os fundos de investimentos que oferecem os maiores rendimentos são os que formam as suas carteiras com ações que estão no mercado. Depois que as ações são lançadas no mercado elas adquirem vida própria. Passam a ser objeto de compra e venda. O seu valor não depende mais somente do desempenho da empresa, mas das condições do mercado em que a empresa opera e, ainda, das condições gerais da economia. A Vale e a Petrobrás, cujas ações têm sido as mais valorizadas, estão com muito bom desempenho, mas isso não impediu que suas ações tivessem baixas, porque o mercado de minérios retraiu e o preço do petróleo baixou. Os investidores nessas ações não estão perdendo dinheiro por culpa das empresas, mas porque a crise lá de fora afetou os seus mercados.

Uma análise simplista daria a entender que as bolsas de valores e o mercado de ações são coisas ruins. Se a empresa vai indo bem, é sólida, é rentável, mas as suas ações, que estão na bolsa, perdem valor, ela também se desvaloriza. Há empresas em ótima situação econômica que poderiam ser compradas a preço de banana se fossem negociadas com base no valor de mercado de suas ações. Contudo, é no mercado de ações que a empresa encontra o meio de obter o capital necessário ao seu desenvolvimento. Quando a bolsa opera em alta é mais fácil a empresa colocar as suas ações e obter o capital de que necessita.

O ganho sem esforço, na bolsa, não é o lado ruim do mercado financeiro. É um jogo, e todo jogo tem o seu risco. O lado ruim, e que

tanto pega os ambiciosos como os incautos, são as fraudes, os negócios montados para gerar lucros normalmente impossíveis. No caso americano, segundo o noticiário, Bernard Madoff montou o que é chamado de pirâmide financeira. Para ter aplicadores o seu fundo oferecia rendimento bem maior do que os outros e pagava o rendimento dos antigos com as aplicações dos novos. Como os novos também foram permanecendo no fundo, porque o negócio era vantajoso, com a chegada da crise parou de entrar aplicadores novos para cobrir o rendimento dos antigos e o negócio estourou, prejudicando não só os especuladores de carreira, mas até instituições filantrópicas. Um desastre de enormes proporções. Na opinião do grande investidor Donald Trump, Madoff é “podre, um desonesto completo.”

Quanto aos especuladores, que se tornavam ricos sem produzir nada, que agora a crise está derrubando, muitos já estão curtindo os divãs dos psicanalistas. Em entrevista à Folha o psicanalista Jorge Forbes diz: “O jovem milionário que fez fortuna em um banco de investimentos, por exemplo, tem um valor social limitado. As pessoas não o respeitam por criar alguma coisa, curar, advogar ou escrever.” Suas riquezas ficaram em papéis e arquivos de computadores, para serem rasgados e deletados.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

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