Os personagens desta matéria lembram aquele mercador da parábola bíblica que, em uma viagem, encontra a maior e mais perfeita de todas as pérolas. Ele volta para a casa, vende tudo o que tem e compra a pérola. Alguém poderia questionar a lógica do gesto do comerciante, de dispor de todos os bens que possui para se apoderar de um objeto que, por si só, não vale nada (a não ser que ele pudesse se alimentar da pérola ou morar nela).
Para nós, modernos, egocêntricos e capitalistas, a troca feita pelo mercador (se é que o ato pode ser descrito como tal) pode parecer pouco vantajosa. O que dizer, então, de alguém que abre mão do emprego, da casa ou de um órgão vital em prol de outra pessoa? E se essa renúncia não atinge o efeito esperado (por exemplo, se eu dôo meu rim para um familiar e esse alguém acaba vindo a falecer)?
Os indivíduos cujas histórias serão contadas a seguir tiveram de fazer algum tipo de renúncia no decorrer da vida. João Ferreira da Silva deixou tudo o que tinha em Natal (RN) e se mudou para Bauru, na cara e na coragem, para que a esposa, Maria, pudesse se tratar de um sério problema nos lábios.
Edval Donizeti Ezaúde doou um dos rins para a ex-esposa, Silvana, que vinha se submetendo a sessões de hemodiálise. Cida (cuja identidade será mantida em sigilo) precisou dispor de dispor de três casas, um carro e um rancho na tentativa de tirar o neto do mundo das drogas.
Completam a lista a comerciante Regina Xavier e a funcionária pública estadual Ercília Pereira Lima. A primeira não tem tido sossego desde que se casou, há 25 anos, já que, volta e meia, alguém busca abrigo em sua casa. “São coisas que acontecem na minha vida. Não consigo entender”, diz.
Ercília, por sua vez, chegou a se colocar à disposição para doar um rim para o filho doente, mas não conseguiu levar o gesto adiante, pois exames detectaram que seriam grandes as chances de o rapaz apresentar rejeição.
“Não sei se meu gesto foi em vão. Tudo que fazemos por amor tem sua importância”, acredita ela, que, por intermédio de amigos e colegas de trabalho, chegou a arrecadar mais de R$ 50 mil para o tratamento do filho. Com a morte do rapaz, o dinheiro acabou sendo doado para hospitais e entidades que prestam auxílio aos doentes renais crônicos.
Nos textos que se seguem, o leitor terá chance de conhecer melhor as histórias de renúncias de cada uma dessas pessoas. Buscariam elas algum tipo de recompensa? As matérias tentarão também discutir essa questão.
“Quando um homem tem um filho e luta pela vida dele, de certa forma, está buscando sua perpetuação. Quer dizer: todos sabemos que iremos morrer um dia, mas buscamos sempre uma forma de prolongar ao máximo nossos dias”, aponta a professora Maria de Fátima Mucheroni, 54 anos, responsável em Bauru pelo Movimento “Humanidade Nova”, ligada ao Folkolares, organização não governamental (ONG) internacional que tem por objetivo principal promover a fraternidade universal entre os povos.
Fátima afirma que gostaria de se perpetuar no mundo por meio da memória das pessoas. “Quem sabe ser lembrada como alguém que lutou contra os muros invisíveis da sociedade: a fome, a miséria, as injustiças e a violência”, diz.
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‘Doaria meu rim para um estranho’
Ercília Pereira Lima, 59 anos, trabalha como funcionária pública estadual, além de ser voluntária da Associação Bauruense de Apoio ao Doente Renal Crônico (Abrec). Anos atrás, ela teve de passar por uma dura experiência na vida: descobriu que o filho Paulo Ricardo, na época com 14 anos, sofria de sérios problemas renais.
Ela chegou a se dispor a doar um dos rins para o garoto, mas exames de sangue apontaram que haveria grandes chances de o rapaz apresentar rejeição. “Fiquei tão frustrada naquele dia... Se pudesse, daria minha vida por ele”, garante.
Sem poder doar o rim para o filho, Ercília passou a buscar outras formas para resolver o problema do filho. Médicos de Curitiba chegaram a testar 50 diferentes possíveis doadores para o rapaz, em vão. Amigos e colegas de trabalho de Ercília conseguiram arrecadar quase R$ 50 mil, na esperança de que o dinheiro pudesse ajudar a solucionar o problema do garoto (desse total, R$ 30 mil foram para as despesas do tratamento do rapaz; do restante, R$ 20 mil foram doados ao hospital onde foi realizada a cirurgia, outra parte foi usada para melhorar a hemodiálise do Hospital de Base e outra destinada à Abrec).
Embora tenha feito o transplante em 1999, Paulo Ricardo acabou falecendo cerca de um mês depois da cirurgia. “Não me arrependo de nada que fiz, pois lutei pela vida de meu filho”, acredita Ercília. Hoje, ela se dedica a tentar melhorar a qualidade de vida dos pacientes renais crônicos. “Eu tento, pelo menos. Às vezes, fico pensando no quanto é triste alguém ter de passar pela hemodiálise. Já falei para o pessoal da associação: se aparecer algum estranho precisando de um rim e o meu for compatível, pode contar comigo que eu dôo.”
Casa da mãe Regina
Desde que se casou, 25 anos atrás, a comerciante Regina Xavier, 47 anos, viu sua residência se converter numa espécie de coração de mãe. Na casa dela, sempre cabe mais um. Tão logo chegou da lua-de-mel (na época, ela ainda morava na Capital), foi surpreendida pelos irmãos, que solicitavam abrigo por algum tempo. “Depois, meu pai teve câncer e veio morar comigo”, conta. Alguns meses mais tarde, uma cunhada teve problemas pessoais e, acompanhada da filha, foi até a casa de Regina pedir que ela as acolhesse sob suas asas.
“Daí, meu pai faleceu e minha mãe precisou vir morar comigo”, conta. A mãe acabou trazendo uma irmã a reboque. Passado mais um tempo, uma comadre solicitou a ela que recebesse um afilhado que apresentava sérios problemas de comportamento.
Haja paciência! “Fico pensando: todas essas pessoas que vieram até mim não tinham a quem recorrer, portanto era minha obrigação acolhê-las”, diz Regina. Atualmente, ela cuida de uma irmã doente e de dois sobrinhos. Tempos atrás, ela também recebeu o sogro, de 90 anos, que sofre de mal de Parkinson. “Não espero ser recompensada. Sou espírita e sei que existe uma lei de causa e efeito que rege o Universo. Tudo aquilo que eu plantar de bom, irei colher mais adiante.”