Os bons ventos que sopraram sobre a construção civil em 2008 não vão cessar nem frente ao fantasma da crise financeira mundial. Segundo projeção do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), no meio industrial, o segmento crescerá 25% até 2010 - entre pequenas e microempresas da região de Bauru. No mesmo contexto, mas no ambiente comercial, a evolução da construção civil nos próximos dois anos será de 10%.
“Está em ascendência em volume de negócios. Na nossa região, vem crescendo muito. O varejo é muito forte. É uma característica da região”, comenta Milton Debiasi, gerente regional do Sebrae em Bauru.
O bom momento para o segmento também foi confirmado pelo diretor regional em Bauru do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP), Renato Parreira. Ele frisa que 2008 foi um dos melhores anos para o segmento, que cresceu 10%. “O SindusCon-SP fez uma pesquisa com quase 250 empresários da construção civil e nós estamos otimistas em relação a 2009. Tudo depende muito do início do ano, do desenrolar dessa crise. Mas, de modo geral, o desempenho está muito bom e vai se refletir em 2009”, comenta.
Na opinião de Parreira, a crise atrapalha as previsões, mas no início do próximo do ano, a construção civil via crescer, no mínimo, de 3% a 4% em virtude dos reflexos do ano anterior. “Muitas obras foram fechadas em 2008. Elas demoram de seis a 12 meses. Se não houver financiamento nenhum, se não houver crédito, vai crescer nessa perspectiva (de 3% a 4%). Mas percebemos que o fundo de garantia, a poupança, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ainda estão investindo e liberando crédito. Existe ainda o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal e o governo do Estado de São Paulo tem boa verba sendo investida. As perspectivas não são ruins”, ressalta.
Fim do ano
O diretor regional do SindusCon pondera, no entanto, que no final do ano é comum que o segmento se desacelere, em virtude dos feriados e do período de chuvas. “Que a crise está chegando, está. Percebemos que muitos lançamentos de prédios foram adiados. Mas, em Bauru, houve muito (lançamentos) e isso vai se refletir em 2009”, reitera.
Um outro ponto positivo do segmento é o fato da construção civil utilizar 100% dos produtos nacionais, acrescenta Domingos Malandrino, diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp). Ele também acredita que o segmento continuará aquecido, desde que não haja nada no mercado internacional que possa mudar esse cenário.
Aliás, por enquanto, a crise é mais psicológica do que real para a construção civil. A avaliação é de Magno Aparecido dos Santos, gerente de uma rede de material de construção. “Continua bastante forte. Tem incentivo do governo porque é um setor que dá sustentabilidade, emprego, movimenta a economia”, explica.
Ainda de acordo com ele, no Interior, quem constrói está distante do mercado financeiro. “A projeção para 2009 é de crescimento de 10% a 15%, mesmo com crise que, por enquanto, para a gente, não existe”, conclui Santos.
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Comércio sobe, serviço pára e indústria cai até 2015
A pesquisa elaborada pelo Sebrae mostra um desempenho diferente entre os segmentos de micro e pequenas empresas (MPEs) até 2015. Em volume de estabelecimentos, o comércio continuará crescendo e representará 64% desse universo. No mesmo período, o setor de serviços permanecerá estagnando, enquanto o industrial cairá pela metade em 15 anos, a contar de 2000.
“O comércio vai continuar crescendo. Na nossa região, é o maior setor. Serviço vai ter estabilidade e as pequenas indústrias vão cair. Hoje, temos menos indústrias sendo abertas. É uma tendência de queda. Cada vez mais, elas sofrem concorrência com as grandes. Para se ter uma indústria, tem que ter tecnologia, tem que ter capital. Hoje em dia, sem tecnologia, a indústria fica para trás. Ou tem ou está fadada ao insucesso. Tem que investir mais”, explica Milton Debiasi, gerente regional do Sebrae em Bauru.
A importância em se investir em tecnologia foi reiterada por Domingos Malandrino, diretor regional do Ciesp. Tanto que sua expectativa é trabalhar com o Sebrae a fim de trazer a tecnologia do meio acadêmico ao setor produtivo. No entanto, ele explica de outra forma a queda apresentada pela pesquisa do Sebrae no setor industrial. “Essa diminuição também está aliada ao fato das indústrias mudarem de porte. Não são mais micro. Acho que o Sebrae está descartando isso. A indústria tem uma volúpia de crescimento. Toda indústria grande já foi pequena”, pondera.
Ambos concordam, porém, que o setor de construção civil é o que mais crescerá no ramo industrial até 2010, no cenário de micro e pequenas empresas. O segundo segmento com maior índice de crescimento é o de confecções (14%). Já no caso do comércio, o varejo de vestuário crescerá tanto quanto construção civil (10%). Na seqüência, é o varejo de autopeças.
O problema do comércio é que muita gente reproduz o que outros fazem e contribuem para tornar o mercado saturado, como é o caso do de farmácias. “Existe um indicador de que o ideal é que haja uma farmácia a cada 3,5 mil habitantes, em média. Então, Bauru teria que ter 100 farmácias, mas tem mais de 170”, explica Debiasi. De acordo com ele, o Sebrae apurou que, no primeiro ano de funcionamento, 27% das empresas fecham. No quarto ano, o percentual chega a 50%.
“O comércio é o que mais fecha. Serviços cresce menos e fecha menos e assim por diante”, diz.
O crescimento das micro e pequenas empresas não é uma característica apenas local. Segundo Debiasi, a situação é a mesma no País todo. “Em 2000, existiam 42 habitantes para uma empresa. Em 2015, vamos ter 24 habitantes para uma empresa. Atualmente temos 5 milhões de empresas no Brasil”, informa.
Os números podem ser explicados por uma conjunção de fatores. Entre eles, o crescimento do produto interno bruto (PIB) nacional, baixa inflação, aumento de renda, oferta de renda e até a extinção de algumas vagas de emprego formal. “Isso vai continuar. A crise é entendida como momento. A tendência é de crescimento para as empresas”, finaliza.
‘Crise impede previsões’
“Estamos com uma guilhotina armada no pescoço. Não dá para fazer previsão nem para o final de janeiro, o que dirá para 2015”. A avaliação é de Benedito Luiz da Silva, presidente da Associação Comercial de Bauru (Acib), que faz menção à crise financeira internacional.
Na opinião dele, erra quem acredita tratar-se de um problema pontual. “Ela é globalizada. A forma mais sensata de fazer previsão é imaginando que a gente consiga uma certa estabilidade muito rápido. Caso a crise se encerrasse hoje, do jeito que está, a gente só voltaria a ter um certo crescimento a partir de julho, agosto do ano que vem. Isso em todos os segmentos, porque não dá para separar mais. Para a construção civil, se não arrumar crédito, não cresce”, diz.
Silva concorda que, antes da crise, o segmento de construção civil estava muito aquecido. “Acontece que tudo estava aquecido, mas mudou tudo.”