Tudo começou com rumores de possível instalação de centros de enriquecimento de urânio na vizinha Barra Bonita ou em Ibitinga, ou talvez nas duas cidades. Também chegaram aos nossos ouvidos protestos na cidade de Castilho contra a possível construção de uma usina nuclear no baixo Tietê (previsto nos planos energéticos de médio e longo prazo do governo federal).
Não tínhamos, até então, preocupações dessa ordem no interior do estado de São Paulo. No começo deste ano vem a pressa do executivo em tocar adiante a usina nuclear Angra 3 sem sequer solicitar a opinião do Congresso Nacional e, mais recentemente um ministro alardeia a meta de 50 novas centrais nucleares nos próximos 50 anos.
Embora existam opiniões que classifiquem a energia nuclear como sendo limpa e uma alternativa viável em tempos de aquecimento global, o fato é que o Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC) não fez qualquer menção a respeito disso nos seus três últimos relatórios e a maioria dos países desenvolvidos continua desativando suas usinas nucleares ou mantendo moratória em relação a novas construções.
Sabemos que a produção da energia nuclear gera pouca emissão de gases do efeito estufa, mas não podemos nos esquecer da construção das centrais nucleares, da prospecção, extração e transporte de urânio, do transporte dos resíduos para processamento ou armazenagem e do futuro desmantelamento que, em contrapartida, são consideráveis fontes de emissões.
O ciclo do urânio, da extração até a utilização no reator, gera enormes quantias de resíduos tóxicos e agride o meio ambiente. Além disso, considerável volume de água é consumido por uma central nuclear, tanto que rios com grandes caudais são exigidos nas proximidades.
Para as contas das centrais nucleares que nos apresentam ficarem mais atraentes, evitam colocar os custos de armazenamento dos resíduos, desmantelamento e limpeza dos locais contaminados, serviços de fiscalização e de segurança e o reforço da linha.
O risco de um acidente, embora seja muito difícil de ocorrer, não pode ser descartado. Recordemos o drama de Chernobyl, que abalou toda Europa e ainda guarda incontáveis cicatrizes. Finalmente, a proliferação e exportação contumaz de tecnologia nuclear aumenta significativamente a possibilidade de novos países virem a se tornar potências nucleares.
Para alguns países pequenos, com parcos recursos hídricos, pouco sol e assentados em placas de gelo, a energia nuclear talvez seja necessária. Agora convenhamos! Com nosso potencial hídrico, com a produção de biomassa, com a incidência de raios solares e tanto vento como dispomos em nosso Brasil, fica difícil aceitar centrais nucleares como projetos prioritários.
Podemos investir na repotenciação das usinas hidroelétricas mais antigas, redimensionando suas turbinas e adotando outras medidas que aumentem a capacidade de produção. Devemos investir em formas de energia limpa, como a eólica, fazendo com que some na rede e possibilite a nossa conexão com tecnologias renováveis de ponta.
Podemos construir linhas de transmissão para que as usinas que transformam a cana de açúcar em etanol possam descarregar seu excedente na rede. Devemos participar conjuntamente com as universidades em estudos voltados para a área e, além de importarmos conhecimento, passemos a produzir conhecimento.
Podemos e devemos ter como pauta prioritária o consumo responsável correndo paralelo à implantação de programas de trocas de lâmpadas que consomem muito por aquelas mais econômicas, substituição de chuveiros elétricos por painéis solares, e uma infinidade de medidas que podem reduzir o consumo, criar novos hábitos e apontar para uma sociedade sustentável.
O autor, José Paulo Toffano, é deputado federal, secretário nacional de formação do Partido Verde e presidente da comissão de meio ambiente, desenvolvimento regional sustentável, moradia, turismo e saúde do Parlamento do Mercosul