Num grande filme sobre Fórmula 1 (Grand Prix, 1966), o piloto vivido pelo ator Ives Montand confessa que o segredo para a vitória consiste em apertar o acelerador quando na pista ocorre um acidente. Instintivamente, diante da tragédia que poderia acontecer com qualquer um, os competidores aliviam a pressão do pé no acelerador. Para o afoito piloto este é o momento-chave de levar vantagem. Quando todos se assustam, ele se encoraja; quando os outros se encolhem, ele se lança.
A mesma tese é defendida pelo professor de psicologia social da Universidade de Princeton Martin Seligman, no livro The Tipping Point, que vou traduzir para “A Fronteira do Êxito”. Na recessão, insiste o objeto de estudo do autor, perdem os que se retraem por causa do medo, e obtêm vantagem os que não se intimidam. Segundo análises, desde o fim da Segunda Guerra Mundial nunca existiu um período recessivo que tenha superado 11 meses e 7 dias, na média. As que mais duraram foram a de 1973 a 1975, que se manteve ao largo de 17 meses, e a de 1981, que teve 1 ano e 4 meses de paradeira. Em nenhuma das ocasiões o período foi tão prolongado a ponto de se fazer prudente a interrupção de todos os projetos de desenvolvimento. Quem assim agiu e brecou as atividades, quando quis voltar à normalidade do mercado este já havia sido tomado pelo concorrente que continuou acelerado. A receita de Seligman é a de agir sempre. Manter-se frio. Pelo menos não se deixar dominar pelo pânico. Continuar mostrando presença no mercado sem jamais se retrair. As empresas que mantiveram suas inversões em publicidade durante os períodos recessivos da segunda metade do século passado, guardaram suas posições e obtiveram ganhos excepcionais no futuro, passado os efeitos do vendaval. Muito poucas companhias agem dessa forma. Apenas uns 25% seguem a vertente otimista e levam vantagem. O autor cita ocaso da Kellogg’s, que se diferenciou dos competidores durante a Grande Depressão dos anos 30 e, em conseqüência, liderou o mercado de matinais nos 50 anos seguintes. Os carros japoneses da Toyota, Honda, Nissan e Mazda conseguiram penetrar no mercado norte-americano durante a recessão de 1981, justamente porque Ford, Chevrolet e Dodge se encolheram. Enquanto as montadoras dos EUA gastavam 119 dólares por automóvel, em publicidade, as japonesas investiam 601 dólares. Já foi muito propagado que, na China, “crise” e “oportunidade” têm o mesmo significado e são representados por um único ideograma. A crise não é só a crise, senão tudo aquilo que se crê sobre a crise. Conta o livro que uma grande parte dos fenômenos sociais do nosso tempo se produzem pela forma de pequenos fatores desencadeantes, como uma epidemia. A crise é o diagnóstico difundido da crise, como o pânico coletivo é o produto do contágio de milhões de medos menores. A psicose massiva desencadeia efeitos cujas raízes não estão no “real”, mas nas inter-relações psicológicas que inspiram a fantasia contagiosa. Daí que a atitude mais positiva contra a adversidade seja a de neutralizar o temor. Significa evitar “o medo ao medo” com o “otimismo inteligente”, como apregoa Martin Seligman.
Na teoria das catástrofes, um conjunto de pequenas causas produz grandes efeitos. O bater de asas da borboleta, no hemisfério sul, desencadeia ondas de deslocamento de ar que se transformam em tufão no hemisfério norte, no exemplo mais prosaico. As conversas boca-a-boca acabam se transformando no falso retumbante. Os financistas, economistas e investidores se iludem com as aparências. É incrível como não vasculham mais a realidade para desnudarem o que está “oculto” no “aparente”. A velha “pirâmide financeira” que já fez vítimas em Bauru com o Banco do Cintra, conseguiu evaporar 50 bilhões de dólares em Nova York. Analistas dos maiores bancos do mundo, como o HSBC e Santander entraram no conto da viúva. Por ficarem no aparente do aparente um acaba servindo de espelho ao outro. Economistas fazem um discurso clonado e repetitivo, por terem um comportamento idêntico. Se as bolsas da Ásia começam mal, a tendência quase que implacável é o mundo todo acabar o dia mal. As previsões e diagnósticos dos economistas e financistas são, quase sempre, as mesmas. Poucos divergem. Todos pensam igual, vão ao mesmo lugar, tentam as mesmas coisas, têm as mesmas grandes idéias, porque estão no reino do aparente do aparente. Eles esquecem completamente o que dizia Walter Lippman: “Quando todos pensam igual, ninguém está pensando”. Feliz crise para todos, em 2009.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC