Especialistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) responsáveis pelo estudo sobre a incidência da depressão entre adolescentes no município de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, afirmam que o problema não costumava ser levado em conta pelos estudiosos e gestores de saúde pública.
“Foi há apenas alguns anos que esse problema passou a ser discutido. Existem dificuldades na detecção e no tratamento mais adequado do transtorno. Além disso, as características da faixa etária fazem com que a depressão se torne um distúrbio comórbido (ou seja, vem associado a outras doenças mentais) que acaba sendo deixado em um segundo plano pelos especialistas”, explica a psicóloga Joviana Quintes Avanci, pesquisadora do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli/Fiocruz e uma das responsáveis pelo estudo realizado em São Gonçalo.
De acordo com ela, “a depressão na adolescência se destaca pela própria vulnerabilidade dessa etapa da vida, repleta de mudanças psicossociais”. A pesquisadora ressalta ainda que “é grande a chance de recorrência (do transtorno) na vida adulta, o que requer atenção, cuidado e tratamento.”
Avanci lembra que os pais têm um papel fundamental no desenvolvimento das crianças e adolescentes. “É claro que não devemos ignorar os aspectos genéticos, mas temos de levar em conta que o relacionamento familiar afeta diretamente a saúde mental dos jovens. Estar próximo do filho, sem criticá-lo ou humilhá-lo, é uma forma de se prevenir a depressão. O relacionamento entre os pais também influencia na ocorrência do problema.
Discussões e agressões mútuas podem contribuir para o aparecimento do transtorno. O mais importante é proporcionar ao filho um contexto de vida seguro de confiança e afeto, independentemente da conjuntura familiar”, pondera Avanci.
A escola também teria papel importante na prevenção do problema. “O mau relacionamento do professor com os alunos, o bulliyng e o fraco desempenho em algumas disciplinas podem facilitar o surgimento da doença. Para o adolescente que apresenta os sintomas depressivos, o sentimento de fracasso e baixa auto-estima são característicos e é na escola que isso se revela ou se acentua ainda mais”, afirma Avanci.
Ela também alerta que a violência no ambiente familiar aumenta as chances de a doença surgir. “Muitos pais batem e agridem os filhos pensando que isso é educar. Essa idéia é um mito. Temos de estar atentos, também, para as agressões psicológicas - ou seja, os xingamentos, as humilhações e as rejeições -, que, apesar de não deixarem marcas visíveis, prejudicam o desenvolvimento da criança e do adolescente”, conclui.