A convivência diária de 10 anos com alunos foi trocada repentinamente pelo convés de um navio. É uma reviravolta de 180 graus que a professora de matemática Evelyse Cristina Grava deu em sua vida há três anos. Descontente com os baixos salários da profissão de magistério, foi folheando jornais de concurso que se deparou com a escola para oficial da Marinha Mercante. Daí em diante, foi paixão à primeira vista.
Residente em Bauru, a ex-professora do Centro Estadual de Educação Supletiva (Ceesub) está entre os 2% de mulheres de um total de 1,2 milhão de trabalhadores marítimos de todo o mundo que “pilota” navio, numa profissão ainda pouco procurada pelo público feminino.
Antes de assumir o passadiço do navio “Intrépido”, de 18 mil toneladas e 180 metros de comprimento, foram necessários dois anos de estudos no Centro de Instrução Almirante Graça Aranha (Ciagra), a famosa escola do Rio de Janeiro de formação de oficiais da Marinha Mercante.
Em regime de semi-internato, foram meses de muito estudo no período integral, que vai de navegação por meio da astronomia - como faziam os antigos conquistadores e desbravadores do mar - a muita matemática.
Antes de entrar na escola, passou por uma prova eliminatória de natação. Nessa hora, também contou o hobby favorito. “Sempre gostei de nadar”, conta. Numa profissão que tem o contato diário com o mar, é necessário saber se virar numa emergência em caso de precisar nadar o suficiente para não se afogar.
O conhecimento de álgebra e equações ajudaram muito no desempenho de Evelyse Grava, nascida em Jundiaí e “bauruense de coração”, como fez questão de escrever numa lauda para explicar a sua paixão pela Marinha Mercante e como boa aluna no Ciagra.
Literalmente, Evelyse conduz o “Intrépido” pela costa brasileira no transporte de mil contêineres num trajeto que começa pelo porto de Santos e vai até Manaus. Há outra rota ao Sul até Porto Alegre. Quando necessário, navega em águas internacionais até Buenos Aires e Montevidéu.
A oferta do mercado de profissionais na Marinha Mercante é insuficiente. A taxa de evasão chegou a 75% em 2007, principalmente entre mulheres.
Evelyse conta que a jornada é de quatro horas no controle do navio, e o restante do tempo é de descanso. Em tese são 24 horas em serviço, afinal, “mora” no navio durante quatro meses. “Você dorme no trabalho. Quando retorna, tem um período de descanso de um mês a 45 dias”, explica a oficial da Marinha Mercante.
Na cabine ela controla o “leme”, um equipamento semelhante a um volante de carro todo comandado eletronicamente, do qual tem ainda piloto automático, mas a mão humana é a que dá as diretrizes finais na navegação dos pesados cargueiros.
A uma velocidade de 15 nós (cerca de 30 km/h), quando as condições do tempo e vento estão boas, é o máximo que o navio mercante atinge nas águas do Oceano Atlântico.
Quando o “Intrépido” segue para a região Norte, o máximo são oito nós. “A volta é mais rápida, porque não tem a interferência das correntes marítimas e da pressão da água”, explica a oficial de náutica.
Apesar de toda a instrumentação eletrônica (GPS, radar, sonar e rastreadores de latitude e longitude), Evelyse admite com admiração que os antigos navegadores portugueses e espanhóis foram verdadeiros heróis e muito competentes. “Saber que eles navegaram pelos astros e com outros instrumentos mais simples demonstra que eram inteligentes”, declara.
Mesmo com o aparato tecnológico, Evelyse diz que aparelhos falham, por isso é fundamental a preparação na escola de oficiais para aprender a navegação astronômica.
Atualmente contratada pela Hamburg Sud, empresa alemã que faz a navegação de cabotagem (viagens na costa), Evelyse estagiou em petroleiros da Petrobras. Em sua câmera fotográfica coleciona paisagens, pôr-do-sol nas mais variadas regiões e, claro, fotos dos enormes navios com os quais se depara pelo mar afora, principalmente os petroleiros, do tempo em que estagiou na estatal brasileira.
Em sua casa, guarda um presente que ganhou de marinheiros: um imenso quadro com os mais diversos tipos de “nós”, uma verdadeira arte que só os marujos sabem fazer e tem toda uma lógica da profissão.
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Solidão do mar
Na atual profissão, Evelyse Cristina Grava ganha cinco vezes mais do que na carreira de professora, com formação na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e de pedagogia na Unifac de Botucatu. Ela abandonou dez anos de magistério, contratada por concurso. As dificuldades na atual profissão foram conviver com o que ela denomina de “confinamento” (as viagens duram mais de 25 dias e a permanência no navio é de até quatro meses) e momentos de solidão.
Apesar da abertura da Marinha às mulheres no Ciagra, a tripulação ainda é maioria masculina. No “Intrépido”, Evelyse é a única representante do sexo feminino. “Só uma mulher é complicado, mulher é diferente”, emenda, ao explicar a convivência no dia-a-dia.
A adaptação ao balanço constante da embarcação no começo das viagens provocava náuseas até o organismo se adaptar aos dias de mar revolto.
A solidão é outro problema a ser enfrentado. O jeito é se desligar de tudo durante um longo período. Não há receita. Se aprende nas viagens a superar a saudade.
Os navios cargueiros não são iguais aos cruzeiros marítimos, com cabines luxuosas, piscinas e clubes. As instalações das embarcações da Marinha Mercante são menores para acomodar a tripulação. É possível acessar a Internet ou celular quando o navio está mais próximo da costa, mas quando se afasta muito, é difícil o contato com o mundo exterior. Resta o livro como companheiro nos períodos solitários. “O que tenho mais feito é ler”, conta Evelyse.
No momento ela está noiva e pretende se casar. O futuro marido é químico e também tentou entrar na profissão, porém, não foi aprovado.
Satisfeita com o atual emprego, Evelyse admite que a longo prazo vai ter que pensar em algo que não precise ficar tão afastada de casa, principalmente se tiver filhos. “Penso em algo como logística, embora com a descoberta de petróleo na camada pré-sal, o mercado de oficial náutico vai necessitar de mais pessoal”, declara a ex-professora.
A Marinha do Brasil divulgou que está atenta à crescente demanda de pessoal devido ao “notável” incremento da navegação no Brasil. Em 2007, 343 praticantes-alunos foram colocados à disposição do mercado, e neste ano a previsão é de que sejam formados 462. Por enquanto, como a própria Evelyse faz questão de definir sua inusitada profissão, continua na guinada de 180 graus na sua vida.