José Gualberto Martins Tuga Angerami recebeu ontem, no terceiro andar do Palácio das Cerejeiras, o cumprimento de amigos, admiradores e colaboradores no ato que fica marcado como sua despedida da vida pública. Há 25 anos, os filhos Rodrigo e Camilla, ainda pequenos, corriam entre as cadeiras do auditório e o corredor do andar onde fica o chefe do Executivo. O pai, com 30 e poucos anos, na época tomava posse em função de um câncer ter vencido o então prefeito Édison Bastos Gasparini.
Ontem, por volta das 19h20, no mesmo ambiente, a esposa Shalimar lá estava com a presença dos filhos, estes agora já tendo alcançado a mesma faixa etária do pai quando em novembro de 1983 estreava na função. E como os ciclos pessoais se completam tanto quanto os da vida pública, ontem, dois pequenos cidadãos tomavam o lugar dos filhos do prefeito, correndo entre as cadeiras do mesmo ambiente de 25 anos.
Desta vez, entretanto, era chegada a hora de voltar para casa e a corrida lúdica dos netos posicionou para a esposa e agora avó a lembrança. No lugar dos filhos e da posse de 1983, ontem à noite lá estavam os netos e a despedida. Os filhos foram buscar o pai, a esposa o marido e os netos o avô José Gualberto.
Admirado pela sua capacidade de articular idéias e abusar da dialética política, o Tuga que deixou a prefeitura no último dia útil da gestão, ontem, teve de reaprender a arte de ‘engolir sapos’ e acomodar a relação entre seu lado combativo como parlamentar, do passado, com a necessidade de não revidar mesmo quando sua inteligência emocional o cutucava, nos últimos quatro anos.
Segundo o ex-colaborador das Finanças Edmundo Albuquerque, o José Gualberto que deixou ontem a prefeitura e a vida pública se comprometeu em se preparar para tanto, sobretudo para reconstruir a relação de diferenças, intrigas e debates com o Legislativo. A construção da pacificação das relações institucionais ele conseguiu concluir.
No campo das ações práticas de governo, o próprio Tuga Angerami já teve oportunidade de avaliar ao JC, em agosto deste ano, que optou por perder seu patrimônio eleitoral em favor do reequilíbrio financeiro da enfraquecida, sucateada e lenta máquina administrativa municipal que sofreu com desmandos nos últimos 20 anos.
Tuga falhou por vezes e ontem o jornalista o cumprimentou pela sabedoria em lidar com as pedras e eventuais exageros do lado de cá. Já José Gualberto teve problemas pessoais – além dos de cunho político – que contribuíram para que deixasse de realizar ações factíveis e outros planos possíveis pelo caminho.
Mas o homem que ontem deixou a vida pública estava com a espinha ereta, consciente da escolha que fez pelo arranjo das relações institucionais entre os poderes, de um lado, e a pavimentação não das ruas, mas do caminho do equilíbrio fiscal e financeiro da prefeitura entre 2005 e 2008. Isso é pouco para muitos, razoável para outros e nada além da obrigação para alguns.
O professor de psicologia retorna para a sala da universidade pública em janeiro, os colaboradores partem para missões pessoais, públicas ou não, e a família tem de volta, enfim, o integrante que a vida pública emprestou.
Ontem foi assim. A família estava lá para o retorno, agora, segundo o próprio protagonista, sem volta. Aos netos que ontem rondavam pelas cadeiras do auditório do Palácio das Cerejeiras, o texto final da trajetória política estará escrito para que, no espaço e no tempo, recordem, como adultos, o caminho percorrido pelo avô.