Pesca & Lazer

História de Pescador: Nem só de peixe vive o puçá


| Tempo de leitura: 2 min

Eram férias, mais precisamente, de julho. Lá estávamos: eu, Chico meu sogro e Paulo da Madalena, tio de minha esposa, com nossas varas de pescar, dando banho em minhocas.

Para quem conhece o braço do Rio Tietê em Iacanga, com aquela imensidão de água, sabe que não é piscoso.Paulo retira de seus apetrechos de pesca um puçá e tenta pegar uns peixinhos para isca.Eu e o meu sogro jamais íamos perder a deixa: passamos a rir da atitude e chamá-lo de Paulo Borboleta, personificando-o no “Dirceu Borboleta”, personagem de “O Bem Amado”, novela da TV Globo.

- Paulo, você veio aqui para pescar ou caçar borboleta? Também caçoei do parente, que chateado, nos deixou. Minha sogra e minha esposa estavam aguando as plantas daquela saudosa casa de campo, que todos os anos nos recolhia e nos aconchegava em nossas férias.

Eis que de repente ouvimos uma gritaria das mulheres e não ligamos para tal fato, já que era acompanhada também de muitos risos. E lá teimávamos em “pescar”. Exaustos de nossa “pescaria” e com nossas sacolas vazias, não tínhamos pescado nenhum exemplar para registrar esta estória. Achamos por bem irmos embora.

Ao chegarmos ao salão da casa de campo, fomos recebidos por nossos parentes debaixo daquela gozação conhecida: “asso no dedo”, “engulo cru”, “como vivo”, só a fotografia vai pesar dez quilos” e outras mais... Guardamos a tralha de boca calada. O que falar em uma situação dessas?

Paulo da Madalena, sentado em um velho sofá, enrolava o seu bigode observando-nos com um sorriso malicioso e zombeteiro. Chico indaga:

- E você, Paulo, caçou muitas borboletas? Fazia menção ao deboche que há pouco fizéramos. Rimos até chorar pela chacota.

Neste instante, chega a minha sogra toda garbosa, mostrando-nos um tatu já “mortinho da silva”, dizendo que fora apanhado naquela algazarra que ouvíramos. Contou-nos que, ao estarem aguando as plantas, viram o tatu tentando esconder-se em um buraco. Gritaram ao Paulo da Madalena, que acabara de chegar com o puçá em uma das mãos.

Disse ter jogado um balde de água no buraco, assustando o animal, que retornou tentando escapar do líquido. Eis que o Paulo “Borboleta” o caça com o famigerado puçá, não restando ao bichinho outra alternativa a não ser a de entregar os pontos.

Eu, obviamente, não acreditei no que ouvia. Incrível, o Paulo “chumbado” do jeito que estava, com mil e uma “51” no bafo... Não! Paulo? Nunca! Com o puçá, nossa peça de deboche? Impossível. Jamais poderia caçar tatu com o puçá.

Meu sogro, embora mastigador insaciável de tatu, lambedor de beiços, também não acreditou na estória. As mulheres juraram de pés juntos que o tatu havia sido caçado com o puçá de Paulo, o que até hoje não consigo acreditar, mas como sogra não mente... Viva o Paulo “Borboleta”!

Tomás Alpresi dos Santos é pescador e contador de histórias.

Comentários

Comentários