Ficar na primeira fila de um espetáculo sempre sai mais caro. Na São Silvestre é a mesma coisa. Se não dói no bolso, sair na frente dos demais corredores amadores que disputam a prova pode custar caro ao organismo. Para conseguir um espaço privilegiado na largada da corrida, os atletas chegam a ficar mais de cinco horas parados, praticamente estáticos, amassados pela multidão que se coloca atrás. Alimentação enquanto guarda o lugar, nem pensar. Hidratação, só às vezes, se um ambulante ou um amigo se prontificar a ajudar. E o aquecimento tem que ficar mesmo para os primeiros quilômetros da disputa. Enfim, um perigo para quem quer correr por quase duas horas para completar os 15 mil metros da tradicional corrida.
Mas vale a pena. Ao menos é o que garante José de Cássio Silva, de 41 anos, que se escorou na grade de proteção lateral da Avenida Paulista, bem na linha de frente da largada, antes do meio-dia desta quarta-feira. A prova começou pouco antes das 17h, mas sua última refeição - “macarrão com pernil, para dar energia” - foi por volta das 10h da manhã. “Aqui dá para largar forte e fazer uma boa corrida. Se ficar lá atrás, a gente não consegue correr”, explicou o churrasqueiro.
Mesmo atletas amadores como José da Silva são capazes de proezas difíceis de acreditar. Ele trabalha das 8h às 17h e mesmo depois de uma jornada de trabalho estafante ainda tem fôlego para correr cerca de 20 quilômetros por dia. Há 15 anos, comemora a chegada do ano novo disputando a São Silvestre. É a sua festa. “Não fico com dor, estou acostumado”, garantiu.
Festa, aliás, é o intuito da maior parte dos 20 mil atletas inscritos na corrida. Tem gente que vem de longe, algumas vezes fantasiado, como faz Francisco Fernandes Santos, cearense da pequena Iguatu, a 2.763km de São Paulo. Só para chegar à capital paulista, ele já disputou uma verdadeira maratona: quase três dias de ônibus e hospedagem no alojamento de atletas no Ibirapuera. É sua nona participação na São Silvestre, sempre vestido de Lampião, roupa que usa nos treinamentos diários.
“Aqui a coisa é séria, menino”, brinca Francisco Fernandes Santos, que disse sempre completar a prova, apesar do pesado macacão. “Fico todo esturricado com o calor, mas vale a pena.”