Cultura

A fragmentação do saber científico e filosófico


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Variados são os recursos que o homem possui para progredir no conhecimento da verdade, tendo nas mãos o poder de tornar cada vez mais humana a sua existência. No entanto, o caminho traçado com estes recursos, pela razão absoluta, culmina na pós-modernidade numa mutilação do seu espírito e conseqüentemente na fragmentação da Ciência e da Filosofia. A busca pela verdade pertence é própria da natureza humana. Mesmo sendo impossível encontrá-la, o homem não se cansa de perenemente esboçar respostas nesta busca, o que constitui uma das tarefas mais nobres, do sentido da vida. Efetivamente a Filosofia e a Ciência nasceram dessa busca; do momento em que o homem principiou a interrogar-se sobre o “porque das coisas” e o “seu fim.” Estes dois objetivos são os referenciais em que o homem se baseou para formar as diferentes culturas assim como para dirigir as normas éticas e morais dos diferentes povos.

Contudo, se observa que estes objetivos hoje, se mostram profundamente deturpados na Ciência e na Filosofia. Isto não significa que o homem deixou de se perguntar sobre o porquê das coisas e o seu fim, mas pelo contrário, é justamente por procurá-los que este perdeu os referenciais. A questão não é tanto por falta de informação, mas pela superinformação e também pela falta de um método para sintetizar o conhecimento adquirido. Uma constatação que leva à hipótese de que a ciência e a filosofia se encontram num estado de indeterminação de princípios.

Merleau-Ponty constata que o marco desta crise se verificou em todos os estudos a partir de 1.900. Mas a que se atribui esta situação? A resposta à questão, já esboçada acima, surge com a explosão de novas descobertas realizadas pelas diferentes ciências a partir do início do século 20. As novas descobertas na Biologia, Astronomia, Psicologia, assim como, na História e na Sociologia, produziram uma tempestade de informações que afogaram as possibilidades de contar com uma certeza do futuro firmada no presente ou no passado. A ascensão das ciências deu início a um tempo não retilíneo, da qual, emana a superinformação que acelera o desenvolvimento.

Valéry em “La Politique de l’espirit” assinala: “Não podemos mais deduzir do passado uma imagem do futuro, já que em alguns anos forjamos uma situação cujos traços mais notáveis são sem precedentes e sem exemplo.” A corrida pelo saber antecede o futuro de forma espantosa, como nunca se viu antes: o mundo mudou menos desde Jesus Cristo do que de noventa anos pra cá.

Se por um lado a antecipação do futuro trouxe a multiplicação do conhecimento por outro, trouxe a fragmentação do saber. A lógica da questão pode parecer contraditória, no entanto, se torna evidente, uma vez que nem tudo o que se denomina “conhecimento” é conhecimento. Quanto mais se amplia o conhecimento, menos as ciências são capazes de responder o “porque das coisas e o seu fim”, que estão ligados aos seus próprios princípios. Uma das poucas coisas que o homem ainda pode saber, com certeza, é que as parcelas de informação, com as quais é defrontado aumentam a cada dia que passa. Isto se deve em parte ao fato de que as novas descobertas realizadas pelas diferentes ciências sejam transmitidas – graças aos meios de comunicação como livro, rádio, televisão e internet – de uma forma bastante diluída para o público em geral.

Formulações populares sobre a ciência, em todos os níveis fazem pressupor que a maioria dos cidadãos esteja bem informada, pois apresenta ao público uma infinidade de informações, cada uma se firmando, como verdadeira. Estes pontos de vista se multiplicam tanto que se assiste ao fenômeno da pluralidade de teorias que não faz senão agravar a dúvida que se forma nos indivíduos. Este fato leva o homem cada vez mais a um estado de ceticismo com relação às ciências.

Por que a superinformação nas ciências traz a fragmentação do saber (crise das ciências) e conseqüentemente a crise da Filosofia? O que Husserl denomina fragmentação do espírito serve para a realidade das ciências. Primeiramente, porque o número de estudantes aumenta nas universidades engrossando o contingente de cientistas. Outro ponto é que a falta de um método adicionado ao aumento de pesquisadores nas variadas áreas desencadeia o fenômeno de particularização e especialização das ciências. A especialização é certamente o destino das ciências no mundo moderno: os estudiosos dedicam sua energia a temáticas menores, que em épocas passadas eram negligenciadas. Graças às novas possibilidades de manipular o objeto, cresce a curiosidade de destrinchá-lo, abrindo campos novos de investigação científica. O processo de singularização e especialização ocorre tanto nas ciências como em Filosofia.

O que deriva desta situação é o aumento cada vez maior de especialistas em determinadas áreas bem particularizadas debruçados dentro de um mesmo objeto. Conseqüentemente existem menos cientistas capazes de ensinar os princípios de sua própria disciplina. A clareza que os grandes físicos do início do século 20 tinham com relação à abrangência dos objetivos e dos fundamentos de seus próprios empreendimentos, é algo que foi perdido pelos seus sucessores. E, infelizmente, são escassas as tentativas mais recentes de oferecer uma visão global que focalize aspectos essenciais na ciência. Na realidade, tanto a Ciência como a Filosofia perderam sua objetividade.

A crise das ciências e da filosofia, afeta negativamente o próprio conceito de conhecimento. A crença da antiga razão absoluta, no valor intrínseco de toda unidade de conhecimento, que convergiria para um quadro unitário de um mundo unitário, desmoronou. A idéia tradicional de conhecimento geral que culminaria em um conceito de Filosofia como disciplina que garantiria a unidade deste conhecimento também caiu por terra.

O que vale a avalanche de teorias e de “conhecimento” se não existe um método para ordenar e dar um sentido a elas? Sabe-se tanto de uma particularidade e se ignora os fundamentos básicos da totalidade do objeto. Há uma fragmentação crescente da epistemologia, o que traz o esfacelamento das bases da própria Ciência.

O que aumenta a descrença na Ciência é o fato de que o desenvolvimento em suas bases, muitas vezes, ignora a dimensão ética do ser humano (por exemplo, a manipulação indiscriminada do gene humano). O super desenvolvimento do pseudo-conhecimento coloca em risco a eticidade dos povos. O mundo das descobertas científicas anda mais rápido do que o mundo das instituições morais.

Fausi dos Santos é Filósofo e professor de História da Filosofia Contemporânea na Universidade Sagrado Coração. fsantos@usc.br

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