Antes mesmo de freqüentar a escola foi que Mariane Aleixo leu seu primeiro livro, aos 4 anos. Depois de “A Bela Adormecida”, conto infantil de Charles Perrault, a estudante de design do Instituto de Ensino Superior de Bauru (Iesb/Preve) nunca mais parou de ler.
“Em casa, com os livros, foi que aprendi a ler, antes mesmo de ir para a escola. Hoje, são, em média, um livro por semana”, conta Mariane que, no momento, está lendo “O Livro dos Manuais”, de Paulo Coelho, depois de ‘devorar’ “O Matuto”, de Zíbia Gasparetto.
Para arrumar tempo para tantas leituras, a estudante faz de qualquer lugar um bom momento para se debruçar sobre dramas e ficções, seus gêneros preferidos. “Seja no ônibus ou em uma fila, qualquer lugar é lugar. Sobrou um tempinho, estou lendo”, explica. “Ler é uma necessidade. Não tem um dia em que eu não leia”, completa a estudante.
Se tivesse sido entrevistada para a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, Mariane poderia ter contribuído para aumentar ainda mais o índice de leitoras registradas no levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), sob encomenda do Instituto-Pró Livro. Um dos dados da pesquisa realizada com 92% da população revela que, entre 55% dos que se declararam leitores de livros, 55% são mulheres, 8% a mais que os homens - que representam 47%.
“Realmente, as mulheres retiram muito mais livros em relação aos homens. Eles freqüentam bastante a biblioteca para ler jornais e revistas, mas são elas que tem mais hábito de ler livros e levá-los para casa”, afirma Elizete Maria Barro, diretora da divisão de bibliotecas de Bauru.
Segundo Elizete, é difícil apresentar razões que expliquem esses números. Mas, para ela, ter uma maior quantidade de mulheres leitoras pode estar relacionamento a uma herança cultural. “Os livros eram uma prática habitual de entretenimento das mulheres que, por ficarem em casa, tinham mais tempo para leitura. Hoje, diante da figura da mulher moderna, temos outros paradigmas. Mas, acredito que não tenhamos deixado para trás essa herança”, considera.
“Tem também a questão emocional. De maneira geral, as mulheres se deixam envolver mais com a leitura”, completa. Da mesma opinião partilha Márcia Valéria Zamboni Gobbi, professora de literatura brasileira do curso de letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Araraquara. Para ela, a maior sensibilidade e familiaridade com as artes, em geral, faz a leitura mais assídua na vida das mulheres. “Talvez elas tenham uma maior predisposição a se entregar ao mundo da imaginação proposto pelos livros”, sugere.
Crescimento
Nilo César Alves Júnior, gerente da Livraria Jalovi, onde a maior procura de livros por mulheres também é uma realidade, acredita que este comportamento esteja relacionado à busca pelo crescimento, além da questão do consumo. “As mulheres utilizam os livros como ferramenta para seu crescimento profissional e pessoal. Hoje, por exemplo, as publicações na linha de auto-ajuda são o carro-chefe das livrarias. Tem também a questão do consumo, elas é quem compram mais”, considera.
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Hábito
Independente do sexo, uma coisa é certa: o gosto pela leitura está bastante relacionado ao hábito. A professora Márcia Valéria Zamboni Gobbi, que, atualmente, está lendo “O Livro dos Nomes”, de Maria Esther Maciel, destaca a importância de incentivar a prática desde cedo. “É importante que se conte histórias, deixe os livros à disposição, assim, as crianças vão se habituando mais facilmente à leitura”, aconselha.
E como em casa de ferreiro nem sempre o espeto é de pau, os filhos de Márcia herdaram da mãe o interesse pelas histórias. Em férias, em Bauru, na casa dos avós, livros não faltaram nas malas da família. Ana Luiza, de 14 anos, veio acompanhada de “Crepúsculo”, de Stephanie Meyer, cuja adaptação para as “telonas” estreou na última semana, no Brasil. “Gosto de ler para passar o tempo e aprender coisas novas. Sempre que viajo carrego um livro comigo”, conta a adolescente.
Já Gabriel, de 17 anos, trouxe “Ponto de Impacto”, de Dan Brown. “Gosto de ler deitado, com calma. É um momento de reflexão e de imaginar as histórias”, considera.
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O prazer de ler e vender
Para Kelyn Letícia Gomes Fernandes, a literatura é uma maneira de fugir do estresse do dia-a-dia. “Quando eu leio, fico em paz. É um momento de sossego quando estou em casa”, define. Mas, além desse prazer que os livros lhe dão, seu gosto pela leitura ainda a auxilia no trabalho.
Atendente de uma livraria, Kelyn utiliza seu interesse pela literatura para dar dicas aos clientes. “Acabo vendendo bem mais. Várias pessoas já vêem me procurar na loja em busca de comentários e minhas sugestões sobre os livros”, conta.
Kelyn prefere os romances e as histórias policiais, e procura ler sempre os mais comentados. “Acompanho listas dos mais vendidos, lançamentos e dicas de amigos. E mesmo que eu não goste de uma história, leio até o final. Não consigo parar um livro sem terminar”, conta.
Suas últimas leituras foram “A Cabana” e “O Jogo do Anjo”, do catalão Carlos Ruiz Zafón. “Leio, em média, um livro por mês. Se tivesse mais tempo leria mais”, lamenta.