Cultura

Desafios da Filosofia no mundo contemporâneo


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Tendo vivido no século Vinte mais da metade dos anos que tenho, quando reflito sobre ele, constato, com gratidão e esperança, que tive a oportunidade ímpar de conhecer , pessoalmente, ou pelos livros e outros meios,um número incontável de pessoas apaixonadas pelo pensamento e pela vida, que me ensinaram a aprender e a continuar buscando .

Ao receber o pedido do jovem professor Fausi, que me estimulava a escrever sobre os desafios de hoje e as perspectivas da Filosofia , mesmo sabendo que o espaço era limitado, não consegui resistir à tentação de contar uma experiência intercultural ,que vivi em Milão,há quase dez anos. Numa platéia com jovens de todas as idades, alunos e professores, ensinava um sábio espanhol indiano, hoje muito conhecido, já bastante idoso, RAIMON PANIKKAR. Tinha, na época, 83 anos e seus olhos sorriam quando ele expressava verdades profundas e simples, como só os sábios fazem. Falava da vocação do filósofo e de uma “philosophia perennis”, de um saber não categórico, mas que vale como pergunta, como fonte, nascente que impulsiona a um transcender-se aberto ao diálogo. Não a um diálogo qualquer, mas a um diálogo dialogal, que não é diálogo dialético, mas é o método próprio da filosofia : “O filósofo autêntico dialoga sempre(...) conversa com o outro, um outro que, num certo sentido, representa um outro mundo ou, pelo menos, um outro ponto de vista”

Para ele, a filosofia para o novo milênio que estava chegando, era a “filosofia que aprende”-sempre pronta a aprender dos outros. Filosofia como modo de ser, como estilo de vida, que não se limita, nem só ao reto pensar, nem só ao reto agir. Falava de uma “ética,” que ninguém tem o direito de promulgar sozinho, que não se promulga, se descobre no diálogo e que deve confrontar-se, hoje, com um “novum” que nunca se verificou na história: o “novum” de tanta gente que morre de fome, de sede, de inanição, de violência. E que espera uma redenção concreta: não um anúncio de princípios éticos, mas um comportamento operativamente salvífico, purificado de qualquer pretensão messiânica.”

Cada palavra era densa, rica, tanto, que resumir é impossível. Hoje já existem livros dele traduzidos no Brasil e, com meios eletrônicos, podemos até assistir a outras palestras dele, que tenho seguido nestes últimos anos. Em 2008, ele completou 90 anos, mas continua dialogando, falando de uma dimensão de Amor que pode indicar, com sensibilidade nova, aquele saber acumulado que vem dos “verdadeiros filósofos que, independentemente, do tempo e do espaço, sempre se dão as mãos” como ensina a filósofa Edith Stein.

Tenho participado há alguns anos, do Simpósio Europeu de Docentes Universitários, que acontece anualmente em Roma e o tema das Perspectivas da Filosofia para o nosso tempo tem enfocando questões complexas para rever os próprios métodos, os espaços epistemológicos, os objetivos, levando em conta os prepotentes desafios do mundo globalizado, diante de um imenso horizonte de compreensão, oferecido pela pluralidade de visões. No VI Simpósio em junho de 2008, o tema que reuniu 400 estudiosos de 29 Países e que foi o fio condutor de todas as atividades, palestras e debates era “ Alargar os espaços da racionalidade- Perspectivas da Filosofia”. Muito interesse e participação, mas um fato concreto, apresentado nos grupos e confirmado nos contatos pessoais, se destacava :

Contrariando previsões antigas, registram-se em quase todos os países presentes, iniciativas que podem ser conhecidas através de livros, revistas e pela Internet, em que os jovens que buscam estudos filosóficos tem uma participação decisiva.

Além do aumento de alunos nos cursos de Filosofia, constata-se a abertura de novos cursos, de inclusão de disciplinas filosóficas nos currículos, de eventos que propõe diálogo, pluralidade, participação de gerações diversas, oficinas, Cafés Filosóficos, debates, encontros. Procura-se a Filosofia no seu significado mais específico, não apenas como busca individual, mas, acima de tudo, como alcance de uma dimensão “sapiencial” “Sophia”, em forma de diálogo, que nasce entre as ruas e praças de Atenas, mas também em outras partes do Oriente e do Ocidente, nas mais diferentes épocas, como na FAFIL dos anos 50 e na USC de hoje.

Ir. Jacinta Turolo Garcia - doutora em Filosofia e Pesquisadora do pensamento de Edith Stein.

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