Há uma diferença abissal entre os problemas que levaram os bancos a restringir a oferta de crédito entre nós a partir de setembro de 2008 e a profunda crise de crédito que empurrou para a recessão as maiores economias do globo. Nos Estados Unidos, onde tudo começou, a patifaria contaminou o sistema bancário numa tal dimensão que terminou por levá-lo à falência. O sistema bancário americano quebrou e ainda arrastou quase uma centena de casas bancárias (e um país, pelo menos) à falência em todo o mundo.
No Brasil temos um sistema bancário hígido, submetido a uma regulamentação que vem se aperfeiçoando desde a criação do Proer. Ele ficou longe das aventuras que produziram a tragédia dos mercados financeiros na atual década. A questão, então, é tentar entender porque os bancos brasileiros adotaram uma postura extremamente restritiva no crédito, como se fossem obrigados a importar os efeitos de uma crise para a qual não contribuíram e de cujos “benefícios” não participaram?
É certo que houve um susto quando se suspenderam os financiamentos externos, o sistema bancário precisava redobrar os cuidados a partir de setembro, mas era do conhecimento de todos que tínhamos condições de substituí-los. O Banco Central, embora não tenha agido com a rapidez necessária, acabou mostrando que isso era possível e, se necessário, pode aumentar o crédito para fazer essa substituição.
O crédito para manter o ritmo da atividade interna, para a produção e na ponta do consumo encolheu e está ameaçando a manutenção do emprego dos brasileiros por um excesso de cautela, em muitos casos por uma espécie de temor desprovido de racionalidade. É certo que temos um sistema bancário hígido, como tenho insistido em dizer todos esses anos, mas neste momento me parece que os banqueiros não estão dando a devida atenção a um problema capital: o sistema é hígido mas só continuará a sê-lo enquanto os devedores forem hígidos.
Se eu sou banqueiro e decido negar o empréstimo a um cliente que durante muitos anos honrou seus compromissos comigo, que cresceu junto com o Banco, mas por temor da conjuntura mundial estou cortando o seu crédito, eu vou transformá-lo num mau devedor. Atitudes míopes dessa natureza estão inoculando uma doença num sistema bancário de compleição reconhecidamente saudável. Cobrar mais juros de um bom cliente também pelo temor que a inadimplência vai aumentar devido à desaceleração da economia é promover a queda do ritmo da atividade econômica, o desemprego e o enfraquecimento do próprio setor.
Tendo deixado passar uma oportunidade de ouro há 40 dias quando já podia sinalizar a redução dos custos financeiros para a atividade econômica, o Banco Central esta semana finalmente realizou o corte de 1 ponto percentual na taxa Selic para 12,75% ao ano. Os juros precisam cair muito mais e rapidamente se queremos afastar as nuvens dessa crise importada. Este início de queda pode melhorar as expectativas em relação ao comportamento do mercado consumidor e da oferta de crédito para os próximos meses.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor Emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail contatodelfimnetto@terra.com.br