Hoje faz 40 anos do episódio em que o então capitão do Exército Brasileiro Carlos Lamarca e mais quatro militares deixaram o 4º Regimento de Infantaria (RI) de Quitaúna, no município de Osasco, na Grande São Paulo, para se tornarem guerrilheiros, iniciando uma campanha pelo Vale do Ribeira, na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Lamarca entrou no quartel com sua Kombi e, no paiol, apanhou 63 fuzis FAL, três metralhadoras INA, uma pistola, munição e entregou para a VPR.
Três militares participaram dessa ação, além de Lamarca - cabo José Mariani Ferreira, soldado Carlos Roberto Zanirato e o bauruense, único vivo dos quatro, sargento Darcy Rodrigues. Ele contou que conheceu Lamarca, à época segundo tenente do exército, em 1962, quando foi transferido da Escola de Sargentos do Exército, em Três Corações - MG, para a 4º Regimento de Infantaria com 19 anos. “Ele veio me procurar porque sabia que eu defendia a legalidade e a constituição. Tomei posições, no Exército, principalmente, no evento da renúncia do presidente Jânio Quadros e a tentativa de dificultar a posse do vice-presidente João Goulart, por parte de setores das Forças Armadas. Isso me tornou conhecido”, contou. “A primeira impressão que tive dele não foi boa. Com que intenção um oficial procura um sargento?”, questionou. “Não fui muito receptivo com ele”.
No entanto, um sargento de nome Santiago intercedeu a favor de Lamarca. “Ele me disse que eu tinha sido injusto, pois Lamarca era uma pessoa ligada aos interesses dos sargentos. Com isso eu voltei a conversar com ele”, contou.
Rodrigues lembra que a partir desse momento se juntou a um grupo de oficiais que estudavam a conjuntura política e econômica nacional no 4º Regimento de Infantaria. “Tínhamos interesse nas questões políticas nacionais”, comentou. “Aprofundei essa discussão e iniciei, com outros sargentos, o Círculo de Sub-tenentes e Sargentos de Quitaúna”.
Segundo Rodrigues, o movimento dos sargentos, à época, era contra a proibição de usar trajes civis antes de cinco anos de graduação e não podiam casar nesse período também. Ele também notou que alguns sargentos defendiam posições políticas nacionalistas e de esquerda. “Começamos a discutir política, a conjuntura da época e as soluções para o Brasil baseado em um sentimento nacionalista”.
Com a evolução do movimento dos sargentos, eles entenderem que deveriam entrar na política – em 1963. “Na época dois sargentos foram eleitos deputados, um estadual e outro federal”, contou. “O movimento foi tomando proporções nacionais”.
Ainda em 1963 houve a tomada dos quartéis em Brasília pelos sargentos. Eles reivindicavam uma maior liberdade e poder de decisão no exército. “O jornal O Estado de São Paulo publicou um editorial dizendo que nós éramos vítimas de ideologias exóticas”, disse. “Eu participei de uma manifestação contra esse editorial. Fui punido e peguei 10 dias de cadeia no quartel de Quitaúna”.
No golpe de 1964 Rodrigues lembra que foi preso mais uma vez com a alegação de que era contrário às posições do “movimento democrático revolucionário”, o golpe militar, ocorrido em 31 de março. “Perambulei por várias prisões, como no Forte Itaípu e Base Aérea de Itapema, por seis meses”. Mas foi solto pois não havia provas contra o sargento.
As prisões de oficiais geraram ainda mais fermentação política entre os sargentos. Nessa época Lamarca estava em serviço na Faixa de Gaza e logo que voltou ao quartel – em 1965 – procurou seu braço direito, o próprio Darcy Rodrigues. O sargento contou a Lamarca que a vigilância em cima dos oficiais do exército havia aumentado.
Nesse momento, com a intenção de buscar pessoas mais comprometidas com as causas dos oficiais, Lamarca faz contato com a Ação Libertadora Nacional (ALN). “Ele continuou o movimento dos oficiais e eu continuei com o movimento dos sargentos”, disse. Mas através de argumentações de Rodrigues, Lamarca tomou parte também da luta dos sargentos, mesmo sendo oficial.
Rodrigues apresentou Lamarca a Onofre Pinto, que era o coordenador do que viria a ser chamado depois de Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) - formada por militares atingidos pelo golpe de 64, operários de São Paulo e intelectuias vindos da política operária que queriam derrubar a ditadura do presidente Costa e Silva. “Nesse momento nós começamos a planejar a nossa entrada para a clandestinidade através de uma ação dentro do Exército”.
Segundo Rodrigues, eles sabiam que mais cedo ou mais tarde seriam descobertos e teriam que mergulhar de vez na clandestinidade.
Até que em 1969 o grupo formado por Lamarca, Rodrigues, Ferreira e Zanirato - os dois últimos eram solteiros - resolveu fazer a ação que ficou marcada na história do Brasil.
Guerrilha
A ação ocorreria no dia 26 de janeiro, porém o caminhão que estava sendo preparado para ser usado na operação foi descoberto pela polícia e alguns integrantes do movimento foram presos. “No dia 24, quando meus familiares e os de Lamarca estavam embarcando para o Exterior, integrantes do movimento disseram que a ação deveria ser cancelada devido à prisão dos colegas”, disse. “Na realidade eu não participei da ação em si, porque estava resgatando um carro que estava com explosivos em um estacionamento ”.
Os familiares de Lamarca e Rodrigues foram mandados para Cuba. “Eu tinha uma esposa grávida de três meses e uma filha criança”.
Lamarca, então, resolveu antecipar e realizar a operação em 24 de janeiro. Ele foi para o quartel, carregou sua própria Kombi com equipamentos do Exército, entregou para a VPR e embarcou na clandestinidade. Ao todo foram 63 fuzis FAL, 3 metralhadoras INA, uma pistola 45 e farta munição.
Rodrigues disse que não eles entendiam que havia alternativa, pois a guerilha seria a única forma de derrubar a ditadura. Ele lembra que a atual ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, participava de ações contra o governo. “Ela era do Comando de Lutas Complementares”, disse.
Na clandestinidade, Rodrigues participou de todas as ações da VPR de março de 69 a janeiro de 70, como assaltos a bancos, em São Paulo e no Rio de Janeiro. “Em janeiro de 70 eu fui deslocado para o Vale do Ribeira - sul de São Paulo e norte do Paraná - onde montamos um campo de treinamento. Vieram militantes de várias partes do país para serem treinados e voltarem para suas regiões”, disse. “O Zanirato já tinha morrido e minha base recebeu o seu nome”.
O sargento clandestino foi preso em 29 de abril de 1970 pelo Exército e pela polícia. “Me deixaram preso sem anunciar minha prisão”. Posteriormente, Rodrigues e mais 39 presos foram trocados pelo embaixador alemão (então, Alemanha Ocidental, Ehrenfried von Holleben), que havia sido seqüestrado pela guerilha.
Ele lembra que saiu do Brasil e foi para a Argélia em 15 de junho de 70 e logo depois seguiu para onde seus parentes estavam, Cuba. “Eu perdi cidadania e fui banido”.
Para se manter em Cuba, Rodrigues ministrou aulas de matemática para alunos de 4ª a 8ª séries da escola secundária Manuel Bisbe por 10 anos. “Fiz licenciatura em economia pela Universidade de Havana”, disse.
Já na ilha de Fidel Castro, em 1971, Rodrigues soube que Lamarca havia morrido. “Cheguei em casa e uma vizinha me falou para eu ouvir uma notícia e, em seguida, informaram que o capitão Lamarca havia morrido”. Ele foi morto no agreste da Bahia, no lugarejo de Pintada, atual município de Ipupiara (então desmembrado do município de Brotas de Macaúbas) juntamente com o metalúrgico José Campos Barreto, integrante da VPR.
Rodrigues voltou ao Brasil em fevereiro de 1980, depois da anistia política. Ele passou 20 anos trabalhando na administração pública de Bauru e terminou o curso de Direito.
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Quem foi Carlos Lamarca
Carlos Lamarca (23/10/1937-17/9/1971) nasceu na cidade do Rio de Janeiro. Filho de carpinteiro, fez o ginásio em colégio de padres e ingressou na Escola Preparatória de Cadetes, em Porto Alegre, em 1955. Dois anos depois é transferido para a Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ), e declarado aspirante a oficial em 1960. Passa a servir no 4 Regimento de Infantaria, em Quitaúna, na cidade de Osasco (SP). É enviado para integrar as Forças de Paz da ONU na região de Gaza (Palestina), de onde volta 18 meses depois.
Estava ligado à 6ª Companhia de Polícia do Exército, em Porto Alegre, quando ocorreu o golpe militar de 1964. Volta a Quitaúna em 1965 e é promovido a capitão em 1967. Faz contatos com facções de esquerda que defendem a luta armada para derrubar a ditadura e, em 1969, abandona o quartel - 24 de janeiro de 1969 - para unir-se à organização clandestina Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), levando armas da guarnição para a guerrilha.
Exímio atirador, torna-se um dos mais ativos militantes da oposição armada ao regime militar. Participa de diversas ações, como assalto a bancos, e instala um foco guerrilheiro no Vale do Ribeira, no sul de São Paulo, desarticulado em 1970 pelo Exército. No mesmo ano comanda o seqüestro do embaixador suíço no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, no Rio de Janeiro, e foge para a Bahia.
Em 17 de setembro de 1971 é localizado na zona agreste baiana, no município de Ipupiara, e morto por tropas do Exército, junto com o metalúrgico José Campos Barreto, também da VPR. A amante de Lamarca, Yara Iavelberg, fora morta dias antes, em circunstâncias não esclarecidas, em um apartamento em Salvador (BA).