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Entrevista da semana: O mais carioca dos bauruenses

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 10 min

Mairton Basílio de Carvalho Farias chegou a Bauru ainda recém-casado e decidido oferecer à família que começava a ser formada a tranqüilidade e a segurança de uma cidade típica do Interior, que tanto ele quanto a esposa já conheciam de inúmeras visitas. Ao chegar, o casal não perdeu tempo. Logo abriu uma casa de chá, a Charão, que na época tornou-se um ponto de encontro tanto para jovens namorados quanto para as famílias de Bauru.

Mairton e a esposa Elida terminaram a faculdade em Bauru. Ele formou-se publicitário e ela, professora. Graças às amizades conquistadas, ele foi chamado para trabalhar na TV Globo e ela passou a dar aulas numa universidade e também na rede estadual. Anos mais tarde, ele resolveu sair da TV para abrir a sua própria empresa que, atualmente está sob o comando de um dos filhos.

Mairton afirma que tanto ele quanto Elida se consideram “adotados” pela cidade. Depois de 37 anos vivendo na cidade, eles têm uma identificação muito grande com Bauru, sem deixar as raízes de lado tanto que mantêm o sotaque carioca. Com filhos criados, o casal nem pensa em parar de trabalhar. Elida ainda continua a dar aulas na universidade e é diretora de escola na rede estadual.

Mairton continua na empresa e administra uma entidade que cuida de crianças no Núcleo Geisel, adotada pelo Lions Clube Bauru Estoril, do qual o casal faz parte. Ambos nutrem uma paixão enorme pelo Carnaval, tanto que todos os anos viajam para o Rio de Janeiro para assistir ou até desfilar nas escolas de samba preferidas: São Clemente e Mangueira. Mairton, que também participou de muitos carnavais em Bauru, vê com entusiasmo a possibilidade da volta da folia na cidade.

JC - Como vocês vieram para Bauru? Mairton - Vim, a princípio, transferido pelo banco. Havia uma vaga na cidade e, na época, pedi para ser transferido para cá. Já conhecia a cidade. Tinha vindo várias vezes e minha esposa já havia até morado aqui, embora ela seja carioca também. Escolhemos Bauru para formar a nossa família. Tínhamos apenas dois anos e meio de casados e gostamos da idéia de criar a nossa primeira filha, que já tinha cerca de um ano, e os outros três que nasceram aqui, longe de qualquer influência da cidade grande.

JC - Foi uma escolha difícil de ser feita? Mairton - Viemos de mala e cuia. Minha esposa deixou o emprego lá, onde era professora estadual, e ao chegar aqui investimos na casa de chá, a Charão. Era na Cussy Júnior com a Agenor Meira. Depois acabamos os estudos e, nesse meio tempo, a gente já havia feito diversos amigos na cidade e a situação já era outra. Mas tudo foi feito pensando na criação dos filhos. Embora quando chegamos tivéssemos só uma, tínhamos planos de ter mais, como aconteceu.

JC - Como era a Bauru daquela época? Mairton - Não tem nem comparação com a cidade de hoje: era calma, bem administrada. Na época, o prefeito era Alcides Franciscato, pessoa que cheguei a conhecer por intermédio de tia da minha esposa, que trabalhava com ele na prefeitura. Naquele momento Bauru era o lugar ideal para se formar uma família, criar os filhos. O Rio de Janeiro ainda não era tão violento como é hoje, mas parece que eu adivinhei na escolha. Já Bauru era uma cidade acolhedora, típica do interior.

JC - Após estes 37 anos em Bauru, o senhor se considera um bauruense? Mairton - Claro! Tenho mais tempo de Bauru do que do Rio de Janeiro. Vim para cá com 27 anos, foi aqui onde alcancei a maior parte de minhas conquistas. Até mesmo se for dividir o tempo vivido nas duas cidades, são dez anos a mais em Bauru. Eu costumo dizer sempre que sou um filho adotado da cidade.

JC - Como o senhor analisa a cidade nesse momento já que viveu e participou de outras épocas? Mairton - Bauru teve um crescimento populacional desordenado. Foi vítima da “politicagem” feita por alguns, que acabou por atrapalhar muitos que estavam realmente interessados em fazer a cidade crescer. Com o passar dos anos, nós fomos ficando ultrapassados. Graças à minha passagem pela TV Globo, conheci a região toda e posso afirmar que todas as cidades consideradas grandes da época eram menores que Bauru - muitas continuam ainda sendo menores: Presidente Prudente, Araçatuba - mas, São José do Rio Preto já superou a nossa cidade há alguns anos.

JC - O senhor tem alguma lembrança do período de adaptação vivido na cidade? Mairton - Quando a gente chegou a Bauru, estranhamos muita coisa. Primeiro, chegamos trabalhando muito. Tínhamos pouco tempo para diversão e, aliás, na época havia pouca diversão. Mas nas reuniões ou festas com os amigos, a gente estranhava o fato de homem ficar de um lado e mulher, do outro. Nunca o casal estava junto e isso era uma coisa que a gente estranhava muito e, aos poucos, depois de fazer um relacionamento maior com as pessoas, nós fomos quebrando esse gelo. A gente era diferente: onde estava minha esposa, eu estava. E vice-versa. Haviam costumes do Interior. Por exemplo: acabava a sessão das 6 no cinema da 1º de Agosto, todo mundo subia para a casa de chá e, quando dava uma certa hora, todos saíam ao mesmo tempo. Nós andávamos de mãos dadas ou abraçados. Era costume nosso e as pessoas olhavam como que reprovando a atitude.

JC - A casa do chá aberta por vocês foi uma novidade na época, como foi? Mairton - O nosso público era bastante variado. Quem freqüentava a Charão, que era como se fosse uma cafeteria nos dias de hoje, eram os jovens. E graças à casa de chá temos ainda grandes amigos que, na época, eram apenas namorados. A casa servia chá gelado com todas as frutas e chá quente - só não tinha bebida alcoólica -, além de salgados, doces e tortas. Tudo idealizado pela minha esposa. Posso afirmar que foi uma experiência muito gostosa e só fechamos a casa porque tivemos que optar por outras coisas.

JC - Como surgiu a oportunidade de trabalhar na Globo? Mairton - Na verdade eu tive um contato com o diretor da TV Globo quando eu ainda estava na faculdade e fazia parte do diretório acadêmico. A oportunidade surgiu quando eles precisaram de alguém para a função de contato. Na ocasião em que o convite foi feito, lembro que eu fazia três ou quatro coisas ao mesmo tempo e então decidi parar para fazer uma coisa só. O convite chegou no momento certo e a passagem pela Globo foi muito proveitosa para mim. A minha amizade com os publicitários vem do tempo em que trabalhei na emissora. Fui promovido a gerente em Marília, fiquei uma ano lá e depois voltei para Bauru como gerente regional. Depois, por necessidade de estratégia de marketing da empresa, fui convidado a deixar Bauru. Eu não queria isso, então a pedido meu, depois de um acordo muito bem feito, eu saí da empresa. Na época, a TV Bauru passou a ser a Rede Globo Oeste Paulista. Se você sair da emissora como amigo, a Globo será sua amiga por toda a vida.

JC - Foi nessa época que nasceu a agência? Mairton - Sim, ao sair da emissora eu já tinha uma bagagem muito grande em mídia eletrônica, mas precisei de alguns estudos para me adaptar às outras mídias. A MB Propaganda nasceu em 1984 e fiquei à frente da empresa por 20 anos. Depois meu filho, após se formar em São Paulo, revelou que gostaria de tocar a empresa. Hoje ele administra e eu estou junto para não ficar parado, não quero parar nunca, quero morrer trabalhando.

JC - Como foi a sua reação ao saber que seu filho estava interessado em tocar a empresa? Mairton - Foi uma surpresa muito bacana porque a formação que minha esposa e eu oferecemos aos nossos filhos foi no sentido de não influenciá-los em nada daquilo que eles escolhessem para fazer. Nunca nós chegamos, nem minha esposa nem eu, a nenhum dos quatro filhos e dissemos que um tinha que ser advogado, engenheiro ou médico. Cada um seguiu aquilo que escolheu para ser com prazer. E este, quando estava se formando na universidade em São Paulo, no último ano, optou por aperfeiçoamento em marketing e me avisou que viria para dar continuidade à empresa da família. Fiquei radiante: mudei a agência de endereço, montei uma sala só para ele e, graças a Deus, não me decepcionou. Até aqueles clientes mais tradicionais que estão conosco desde o início, há quase 25 anos, que poderiam sentir um choque de geração, aceitaram a presença dele da melhor forma possível.

JC - Além da empresa, o senhor está se dedicando a mais alguma coisa? Mairton - A gente sempre se doou muito e, de uns anos para cá, minha esposa e eu passamos a fazer parte de um clube de serviço, o Lions Clube Bauru Estoril. E esse clube apadrinha uma entidade já há uns seis anos. Com isso, alguém do clube precisava dirigir essa entidade. No início minha esposa assumiu o cargo, depois um outro companheiro e agora (desde julho) passei a dirigir o Centro de Valorização da Criança (Cevac), localizado no Geisel. Lá são atendidas 176 crianças no total - 76 na creche e o restante no centro de convivência infanto-juvenil. É trabalho dirigido para crianças de 6 a 14 anos, em horário inverso ao escolar. Se há 30 anos atrás, tivéssemos pensado nisso, teríamos, com certeza, menos problemas de marginalização.

JC - E a participação no Carnaval? Vocês trouxeram um pouco da receita da folia carioca? Mairton - Experiência de organização, não. Tínhamos participado por várias vezes, assistindo ou desfilando pela São Clemente ou Mangueira. Mas o que nós fizemos aqui foi diferente. Éramos um grupo de quase 20 pessoas, muita gente bacana, que gostava de fazer Carnaval. Bauru tinha duas grandes escolas que competiam muito, eram muito boas: Mocidade e Cartola. Para montar um escola de samba a gente tinha que chegar o mais rápido possível ao nível das duas melhores. Eles conseguiam fazer Carnaval em 20 dias enquanto nós trabalhávamos o ano todo. Foi assim que aceitamos o convite do presidente da Imperatriz da Bela Vista e colocamos a escola no mesmo nível das outras. No Carnaval, ganhar não é questão de ser pior ou melhor. É errar menos e nós tivemos a felicidade de chegar ao mesmo nível das outras e, por três anos, ser a escola que errou menos na avenida.

JC - Como o senhor vê a possibilidade do retorno do Carnaval de rua em Bauru? Mairton - Vejo com alegria, mas é preciso ter em mente que os tempos são outros. Depois de mais de cinco anos sem Carnaval, acho que será um retorno muito difícil e não será de uma hora para outra. No ano passado tivemos o desfile de blocos. Este ano cogita-se a volta do Carnaval para a avenida. Se insistirem, em dois ou três anos, o Carnaval poderá voltar a ser uma atração em Bauru.

JC - Tem alguma coisa que o senhor não fez e gostaria de feito? Mairton - Eu não visualizo nada no momento, nada que eu tenha feito e me arrependido, tudo o que fiz na vida em todos os sentidos eu faria de novo. É claro que ninguém esta livre de cometer enganos ou algumas injustiças e claro que devo ter cometido porque não sou perfeito, mas acredito que tudo o que fiz foi com vontade de acertar e por isso faria tudo outra vez.

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