O educador Paulo Freire disse certa vez que a alfabetização é uma estratégia de liberação que ensina as pessoas a lerem não só a palavra, mas também o mundo. Trata-se de aprender a ler a realidade para poder transformá-la e transformar a si mesmos. É a escola como instrumento da emancipação pessoal. Além de propiciar conhecimento, ela auxilia na interação entre as pessoas, incentiva o companheirismo e prepara para a vida em sociedade.
A partir de amanhã, uma parte dos alunos das escolas particulares volta para o convívio com os professores, os amigos, os livros e todo esse universo que exala conhecimento. Depois de dois meses de férias é chegada a hora de retomar os estudos, de dar seqüência aos preparativos para um vida profissional e pessoal mais bem-sucedida.
Para a pedagoga Eveline Ignácio da Silva, coordenadora do curso de pedagogia da Universidade do Sagrado Coração (USC), quanto mais cedo a criança chega à escola, melhor. Segundo ela, os estímulos a que são submetidos os pequenos dentro do ambiente escolar faz com que eles desenvolvam a capacidade de aprendizagem muito mais rapidamente. Eveline diz isso por experiência própria. Ela dá aulas no ensino fundamental e afirma que os alunos que chegaram cedo à escola aprendem com mais facilidade. “São raros os casos de crianças que passaram pelo ensino infantil que não sabem ler e escrever”, conta. Segundo ela, mesmo brincando as crianças aprendem. Aliás, é brincando que elas aprendem com mais facilidade. Esse é o método que ela utiliza para ensinar matemática aos alunos e garante que funciona muito bem.
A importância da escola tem a ver também com o desenvolvimento da personalidade das pessoas embora esse aspecto seja um pouco mais complexo porque envolve também características que já nascem com a pessoa e aquelas que são adquiridas no convívio com a família. No entanto, segundo Eveline, não tem como negar que a escola tem sua participação na formação da personalidade do aluno.
“É na escola que se trabalha a questão das diferenças, do respeito, da solidariedade. Ela deixa o aluno mais desinibido. Quando chegam ao ensino fundamental, não têm problema nenhum de adaptação. Eles não choram no primeiro dia de aula”, relata a pedagoga. “O mais importante de tudo é que a escola proporciona uma certa autonomia para as crianças. Elas aprendem a se virar sozinhas mais cedo”, enfatiza.
Maria Eduarda Rochel, 6 anos, freqüenta a escola desde seu primeiro ano de vida. Ela é o tipo da criança que não pára de falar um minuto. Completamente desinibida, ela diz que uma das coisas que mais gosta de fazer é cuidar dos amigos e dos bebês. Ela confessa que de vez em quando se mete em alguma confusão, mas nada sério. Este ano, ela vai estudar na 2ª série e diz não ter tido nenhuma dificuldade de adaptação no ano passado, quando ingressou no ensino fundamental. “Fiz muitos amigos. Foi bem legal”, revela.
Gustavo Segantin Silva, 8 anos, é outro que está desde o berçário na escola. Atualmente na 4ª série, ele diz ter aprendido “muita coisa” até o momento e que vai aprender muito mais. Afinal de contas, segundo ele mesmo afirma, quando mais aprender maiores serão suas chances de “arrumar emprego”. Segundo ele, “tem muita gente que não presta atenção na aula”. Para estes, uma vaga no mercado de trabalho será mais difícil.
Mas a escola não serve apenas como trampolim para um emprego. Ela tem também os amigos. Na opinião de Gustavo, essa é a outra parte boa de estar estudando. Ele está sempre fazendo novas amizades e convivendo com outros da mesma idade, que normalmente têm os mesmos gostos e falam a mesma “língua”.
Entre seus amigos está Daniel Martins Moreira, 8 anos, que adora matemática e também ajudar os amigos. “Quando eu preciso, eles me ajudam também.” Mas, segundo ele, não é por isso que ajuda, ou seja, seu companheirismo é desinteressado, sem segundas intenções. Bem ao contrário de Caio Pacheco, 14 anos, que não esconde suas segundas intenções dentro da escola. “Sei que o meu futuro depende do que eu aprendo na escola, mas o que eu gosto mesmo é de paquerar as meninas”, diz. Ele conta que seu desempenho na sala de aula é apenas razoável. Não é o melhor aluno da classe, mas também não é o pior. Ele sonha em ser engenheiro, mas não sabe exatamente qual área da engenharia. Para realizar esse sonho, tem consciência que terá de estudar muito e que a escola será muito importante nessa caminhada.
Essa preocupação com o que vai ser quando crescer ainda não faz parte dos pensamentos de João Pedro Pereira Neves, 7 anos. No momento, a preocupação dele é outra. “A escola é importante porque eu aprendi a ler e escrever, mas eu acho importante também porque aqui eu posso brincar, nadar, jogar futebol. Segundo ele, de vez em quando surge uma briguinha aqui e outra ali, mas no outro dia está todo mundo brincando junto novamente. Entre outras coisas, a escola também proporciona a prática do perdão.