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Misse Mariana: quantas antíteses a vida nos prega...


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Entre um misto de espanto, consternação, tristeza e decepção, li sobre a passagem, para o Oriente eterno, da modelo capixava Mariana Bridi, vítima da bactéria “Pseudomonas aeruginosa”, depois de ter sofrido a paralisação de seus rins, amputação dos pés, das mãos e de parte de seu estômago. Aí passei a refletir: a vida nos prega cada peça, cada ironia, cada antítese, que me deixa estupefato. Ontem, uma linda mulher, sob o endeusamento de uma misse, Mariana representou o Brasil no Miss Bikini International 2007, quando esteve em Hong Kong, Taiwan e China e onde ganhou o prêmio de Mais Belo Corpo, pela sua beleza. Hoje, depois da carcomição pelo veneno da moléstia, depois de sua beleza vilipendiada pela mortal bactéria, num relâmpago ao pé da eternidade deixa a vida em plena mocidade. A literatura, que a tudo registra, desenha as muitas antíteses da nossa existência.

Aqui me permito traçar alguns exemplos: a canção “Certas Coisas”, de Lulu Santos e Nelson Motta, explora a noção de “contrários” presentes em nossas vidas: “Não existiria som se não houvesse o silêncio. Não haveria luz se não fosse a escuridão. A vida é mesmo assim, dia e noite, não e sim.” Na poesia popular é fácil encontrarmos passagens como esta: “Atirei o limão correndo, Da Vila-Nova ao cais: Pensei que te esquecia, Cada vez me lembras mais...”. Em Camões, há este belo soneto: “Alma minha gentil, que te partiste Tão cedo desta vida descontente, Repousa lá no Céu eternamente, E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste, Memória desta vida se consente, Não te esqueças daquele amor ardente Que já nos olhos meus tão puro viste. E se vires que pode merecer-te Alguma cousa a dor que me ficou Da mágoa, sem remédio, de perder-te; Roga a Deus que teus anos encurtou, Que tão cedo de cá me leve a ver-te, Quão cedo de meus olhos te levou.” Gregório de Matos, um dois mais polêmicos poetas da nossa literatura, conhecido como “boca do inferno”, no poema “À instabilidade das coisas no Mundo” eternizou: “Nasce o sol, e não dura mais que um dia Depois da luz se segue a noite escura Em tristes sonhos morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. Porém se acaba o sol, por que nascia? Se é tão formosa a luz, por que não dura?

Como a beleza assim se transfigura? Como o gosto da pena assim se fia? Mas no sol e na luz falte a firmeza Na formosura não se dê constância E na alegria sinta-se tristeza. Começa o mundo enfim pela ignorância E tem qualquer dos bens por natureza E firmeza somente na inconstância.” E posso encerrar com o “Soneto da Separação”, um dos mais populares de Vinícius de Morais, onde as antíteses também são presentes: “De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez o drama. De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente.” Assim, nas rodas da vida, nas relações antitéticas, como o riso e o pranto, a calma e o vento, o triste e o contente, o próximo e o distante, vamos aguardando a derradeira antítese: o silêncio gritante da morte!

O autor, Reinaldo A. Aleixo, é procurador do Município de Pederneiras, advogado, mestre em Direito e professor da ITE - Bauru/Botucatu

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