Democratizar, qualificar e humanizar o atendimento em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Esse é o objetivo da Sociedade Brasileira de Terapia Intensiva (Sobrati), presidida pelo médico Douglas Ferrari. Em visita a Bauru, ontem, o especialista avaliou os leitos de UTI de um hospital da cidade. Apesar de verificar que ainda faltam investimentos, ele é otimista quanto à humanização das UTIs da cidade. Para ele, um dos principais pontos é a permanência da família do paciente durante a internação em terapia intensiva.
Há três anos a entidade promove o movimento “Abra seu coração, abra a sua UTI”. “A presença da família não é um fator essencial, mas é muito importante”, afirma. “A UTI é uma internação traumática, pela sua situação. No geral, são internações repentinas e graves, que levam um trauma grande também à família do doente”, explica.
De acordo com o médico, um paciente em terapia intensiva passa por cinco situações diferentes em um curto espaço de tempo e a presença da família ameniza essa turbulência. “O paciente experimenta negação, angústia, medo, estresse e depressão em uma semana. Se você tiver a família por perto, ajuda muito na melhora”, observa.
Ele pontua que uma UTI humanizada possui uma equipe multiprofissional de atendimento formada por diversos especialistas: médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos e odontólogos. “Em Bauru, nenhuma UTI mantém um psicólogo exclusivo. E a cidade é um centro de formação desse profissional”, pondera.
Para Ferrari, a cidade ainda precisa de investimento para chegar ao modelo de humanização proposto pela entidade. “Bauru não está longe porque possui profissionais bem formados e com consciência da necessidade da humanização nas UTIs. Mas ainda é preciso iniciar esse processo. E a sociedade só vai se dar conta quando precisar se internar”, acredita.
Entre as ações que podem ser feitas a curto prazo para a implantação da humanização da terapia intensiva, ele sugere ampliar a permanência de familiares nas unidades. “Uma abertura parcial da UTI, permitir a visita no horário desejado pela família. E isso, ao contrário do que muitos pensam, não aumenta o risco de infecção. Isso é conseqüência de não respeitar normas de prevenção”, avalia.
Bauru
De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde, atualmente Bauru conta com 73 leitos de UTIs do SUS divididos entre o Hospital Estadual, Associação Hospitalar de Bauru e Centrinho. As unidades de saúde de Bauru que atendem pelo SUS mantêm programas de humanização para todo atendimento.
O diretor-técnico do Hospital de Base (HB), Samuel Fortunato, acompanhou a visita de Ferrari à unidade. Para ele, a humanização do atendimento na UTI passa pela interação entre a equipe e a família do paciente. “Há dois ou três anos já mantemos equipe multidisciplinar. Temos psicólogo no quadro do hospital, mas não fixo na UTI”, explica.
Ele avalia que no caso do Hospital de Base, com 29 leitos de UTI, que recebe pacientes vítimas de traumas e pós-cirurgias neurológicas, cardíacas e coronarianas, a presença da família no local não é recomendável. “Não posso ter 10 pacientes graves, com familiares ao lado. Como vou fazer para manobrar no caso de uma emergência? Isso vale para casos de semi-intensivo, não é para o crítico”, avalia.
O médico observa que para o paciente com trauma, inconsciente, a humanização é direcionada para a família. “A humanização consiste em conversar muito, ser o porto-seguro da família”, afirma. Dentro do projeto da entidade, está a criação de um terceiro horário para visitas a pacientes na UTI. “Entre março e abril abriremos um horário à tarde. Hoje, já temos pela manhã e à noite”, lembra Fortunato.
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UTI ideal
Para o presidente da Sociedade Brasileira de Terapia Intensiva (Sobrati), Douglas Ferrari, uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) ideal é aquela que possui quartos individualizados, janelas amplas, um relógio por leito, liberação da permanência da família, um psicólogo exclusivo para UTI que também atenda familiares, ampla sala de recepção. Em caso de UTIs coletivas, um banheiro a cada cinco leitos, que devem ocupar, no mínimo, um espaço de 16 metros quadrados cada um.